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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Liberdade Religiosa


Desde há muito sabemos a importância da liberdade para a caracterização do ser humano. Através dos tempos, a liberdade tem merecido, análise, reflexões, e investigações de estudiosos sob diversos aspectos e concepções, os quais pretendem legitimá-la e por eles serem legitimadas. O Papa Bento XVI nos ensinou que:


Negar ou limitar arbitrariamente esta liberdade significa cultivar uma visão redutiva da pessoa humana; (...) a liberdade religiosa deve ser entendida não só como imunidade da coação, mas também, e antes ainda, como capacidade de organizar as próprias opções segundo a verdade. (Liberdade Religiosa, Caminho para a Paz Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2011).

A liberdade religiosa figura entre os direitos fundamentais de “primeira geração”, tendo ocorrido a sua positivação na segunda metade do sec. XVII em conjunto com as declarações norte-americanas e francesas. Apesar da sua positivação, somente no séc. seguinte é que esse direito passou a estar assentado em sede constitucional. Uma definição contemporânea do que seja “liberdade religiosa” pode ser encontrada no Artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, que afirma.

Todo o homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.

Na Constituição do Brasil, de 1988, o tópico da liberdade religiosa está inscrito no artigo 5º, Incisos VI a VIII nos seguintes termos:

VI - É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantia, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias;
VII – É assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva;
VIII – Ninguém será privado dos direitos por motivos de crença religiosa ou de convicção filosófica ou religiosa, salvo de as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recuar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei. 

A partir daí, passou a ser uma garantia fundamental que passou a integrar o texto constitucional justamente para a proteção de elementos derivados de foro íntimo da pessoa humana, podendo ser invocada pelo cidadão em qualquer momento, até mesmo contra o Estado. O jurista brasileiro Aldir Guedes Soriano, assim expressa a respeito:

Liberdade religiosa é um direto humano fundamental, consagrado nas constituições dos países democráticos, bem como por diversos tratados Internacionais. Trata-se, portanto, de uma liberdade pública, ou, se preferir, de uma prerrogativa individual, face do poder estatal.[1]

Para o professor Celso Ribeiro Bastos, esse conceito implica uma prerrogativa oponível ao Estado. Ele afirma que se trata de “um dever de não fazer, de não atuar; de abster-se, enfim, naquelas áreas reservadas ao indivíduo”.[2]

É interessante ainda registrar, em termos conceituais, a posição do jurista português Jorge Miranda, que afirma:

A liberdade religiosa não consiste em apenas um o Estado a ninguém impor qualquer religião ou crença ou a ninguém impedir de professar determinada crença. Constitui ainda, por um lado, em o Estado permitir ou proporcionar quem seguir determinada religião o cumprimento dos deveres que dela decorrem (em matéria de culto, de família ou de ensino, por exemplo) em termos razoáveis.[3]    

Num artigo publicado no Jornal "O São Paulo", edição 3137, 8 a 14 de fevereiro de 2017, Ricardo Gaiotti Silva, afirma que, “a liberdade religiosa possui basicamente três dimensões”:
a) A liberdade de consciência - que considera antes de tudo, a pessoa humana sujeito individual, que é a capacidade do indivíduo de investigar livremente a verdade religiosa e de aderir-se a ela, sem ser coagido.
b)  A liberdade de culto - que decorre da necessidade humana de manifestar externamente seu pensamento e sentimento religioso, buscando não somente uma satisfação emocional, mas também uma inclusão social; e,
c) A liberdade do de apostolado - tem como finalidade, de acrescentar o fervor religioso entre os fiéis da mesma comunidade, por meio de pregações fora e dentro do culto e de outras práticas pastorais, como, ensinamento do catecismo, escritos em revistas e livros, cinema, teatro, rádio, televisão, internet. Porém, distinguem-se duas formas de apostolado:
O primeiro, chamado interno, é o destinado às pessoas da mesma profissão de fé;
O segundo, externo, possui como finalidade alcançar a todos, crentes ou não.

 Com essas aproximações conceituais pode-se demarcar o que se há de entender sobre o conceito de liberdade religiosa. É importante sublinhar a dimensão da prerrogativa individual face ao Estado e das obrigações negativa e positiva que cabem o Estado face ao cidadão ou indivíduo.  



Liberdade Religiosa & Estado Laico

"Com a proclamação da República, o Brasil deixou de ser um País católico e passou a ser um Estado laico. A liberdade de crença e de culto é garantida pela Constituição. Para conversar sobre o assunto, o Cidadania entrevista Christiane Pantoja, pres. da Comissão de Estudos Constitucionais da OAB-DF, e Bernardo Pablo Sukiennik, advogado estudioso sobre direitos de liberdade religiosa."



Referências
REIMER, Haroldo. Liberdade Religiosa na História das Constituições do Brasil. São Leopoldo: Oikos, 3013.
Manual de Liberdade Religiosa Lélio, Maximino Lellis/ Carlos Alexandre Hees, (Orgs). – 1ª Ed. Engenheiro Coelho SP: Unaspress - Imprensa Universitária Adventista: Ideal Editora 2013.







[1] SORIANO, 2002, p. 5, apud REIMER, 2013, p. 19.
[2] BASTOS, 2005, p. 32 apud REIMER, 2013, P. 29.
[3] MIRANDA, 2000, p. 409 apud REIMER, 2013, p. 30. 

Liberdade Religiosa


Desde há muito sabemos a importância da liberdade para a caracterização do ser humano. Através dos tempos, a liberdade tem merecido, análise, reflexões, e investigações de estudiosos sob diversos aspectos e concepções, os quais pretendem legitimá-la e por eles serem legitimadas.  

A liberdade religiosa figura entre os direitos fundamentais de “primeira geração”, tendo ocorrido a sua positivação na segunda metade do sec. XVII em conjunto com as declarações norte-americanas e francesas. Apesar da sua positivação, somente no séc. seguinte é que esse direito passou a estar assentado em sede constitucional. Uma definição contemporânea do que seja “liberdade religiosa” pode ser encontrada no Artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, que afirma.

Todo o homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.

Na Constituição do Brasil, de 1988, o tópico da liberdade religiosa está inscrito no artigo 5º, Incisos VI a VIII nos seguintes termos:

VI - É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantia, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias;
VII – É assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva;
VIII – Ninguém será privado dos direitos por motivos de crença religiosa ou de convicção filosófica ou religiosa, salvo de as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recuar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei. 

A partir daí, passou a ser uma garantia fundamental que passou a integrar o texto constitucional justamente para a proteção de elementos derivados de foro íntimo da pessoa humana, podendo ser invocada pelo cidadão em qualquer momento, até mesmo contra o Estado. O jurista brasileiro Aldir Guedes Soriano, assim expressa a respeito:

Liberdade religiosa é um direto humano fundamental, consagrado nas constituições dos países democráticos, bem como por diversos tratados Internacionais. Trata-se, portanto, de uma liberdade pública, ou, se preferir, de uma prerrogativa individual, face do poder estatal.[1]

Para o professor Celso Ribeiro Bastos, esse conceito implica uma prerrogativa oponível ao Estado. Ele afirma que se trata de “um dever de não fazer, de não atuar; de abster-se, enfim, naquelas áreas reservadas ao indivíduo”.[2]

É interessante ainda registrar, em termos conceituais, a posição do jurista português Jorge Miranda, que afirma:

A liberdade religiosa não consiste em apenas um o Estado a ninguém impor qualquer religião ou crença ou a ninguém impedir de professar determinada crença. Constitui ainda, por um lado, em o Estado permitir ou proporcionar quem seguir determinada religião o cumprimento dos deveres que dela decorrem (em matéria de culto, de família ou de ensino, por exemplo) em termos razoáveis.[3]    

Com essas aproximações conceituais pode-se demarcar o que se há de entender sobre o conceito de liberdade religiosa. É importante sublinhar a dimensão da prerrogativa individual face ao Estado e das obrigações negativa e positiva que cabem o Estado face ao cidadão ou indivíduo.  



Liberdade Religiosa & Estado Laico

"Com a proclamação da República, o Brasil deixou de ser um País católico e passou a ser um Estado laico. A liberdade de crença e de culto é garantida pela Constituição. Para conversar sobre o assunto, o Cidadania entrevista Christiane Pantoja, pres. da Comissão de Estudos Constitucionais da OAB-DF, e Bernardo Pablo Sukiennik, advogado estudioso sobre direitos de liberdade religiosa."



Referências
REIMER, Haroldo. Liberdade Religiosa na História das Constituições do Brasil. São Leopoldo: Oikos, 3013.
Manual de Liberdade Religiosa Lélio, Maximino Lellis/ Carlos Alexandre Hees, (Orgs). – 1ª Ed. Engenheiro Coelho SP: Unaspress - Imprensa Universitária Adventista: Ideal Editora 2013.







[1] SORIANO, 2002, p. 5, apud REIMER, 2013, p. 19.
[2] BASTOS, 2005, p. 32 apud REIMER, 2013, P. 29.
[3] MIRANDA, 2000, p. 409 apud REIMER, 2013, p. 30. 

sábado, 3 de setembro de 2016

Diferentes formas de entender a palavra “religião”



A pergunta pelo conceito e pelo termo religião leva imediatamente ao centro da Ciência da Religião e, ao mesmo tempo, a um de seus debates internos mais importantes, que segundo Klaus Hock, não será concluído num futuro próximo. Mal-entendidos nascem de termos imprecisos. O que é fácil para cientistas exatos é problemático para cientistas da religião, que quase não podem comunicar seus resultados como uma fórmula ou um cálculo.

De acordo com Hans-Jurgen Greschat, a palavra “religião” é como um labirinto. Perde-se nele que não trouxer um fio na mão para se orientar. Logo após a entrada, encontramos ambiguidades. O Uso da palavra “religião” é corriqueiro, mas parece que somente especialistas conhecem o termo “Ciência da Religião”. Os demais articulam a vaga sensação de que se trata de “teologia ou algo semelhante”.

Um dos problemas na definição do termo “religião” reside no fato de que o próprio termo nasceu num contexto cultural e histórico muito específico:
     a.    Primeiro: história intelectual do ocidente;
b.    Segundo: termo universal em contextos históricos e culturais distintas.
Assim, o termo não é usado de forma uniforme, e até sua derivação terminológica é disputada. Basicamente, a palavra latina religio, à qual remonta descreve uma “atuação como consideração” ou a “observância cuidadosa”;
a.   Cícero (104-43 a. C) define religio como cultos deorum, ou seja, como “culto” dos deuses, como “cultivo” ou “adoração” dos deuses;
b.    Lactâncio (séc. III/IV), deriva religio de religare, ou seja, ligar, amarrar), ligar de novo, ligar de volta, levar de volta;
c.  Santo Agostinho (354-430) descreve a religio vera como “verdadeira religião” como aquela que é orientada pelo zelo de reconciliar e “ligar de volta” a alma que se afastou de Deus.
d.    Recentemente foi proposta uma terceira variante: derivar religio de ren ligare, “amarrar a coisa”, no sentido de descansar das inquietudes.

O que define uma religião: Frank Usarski.


Visão do Cientista da Religião sobre o termo "religião"

A perspectiva do Cientista da Religião sobre o objeto “religião” é bem diferente do olhar de outros cientistas ou pessoas comuns. Greschat é de opinião que o objeto pode ser circunscrita em três frases, conforme os cientistas da religião percebem-no:
     a.    Vêm o objeto “religião” como uma totalidade;
b.    Reconhecem que essa totalidade apresenta-se de maneira quádrupla;
c.   Observam que essa totalidade está viva e que, portanto, não pára de se transformar.
Assim, podemos concluir que:

Primeiro: a visão da totalidade torna-se um divisor de águas entre cientistas da religião e outros cientistas que se ocupam esporadicamente da religião. Em outras palavras o Cientista da Religião é um especialista capaz de associar suas investigações especiais à religião como totalidade;

Segundo: as religiões podem ser estudadas como uma totalidade de investigação de acordo com quatro perspectivas: como comunidade, como sistema de atos, como conjunto de doutrinas, ou como sedimentação de experiências;

Terceiro: religiões vivas mudam sem cessar. Por vezes a mudança fica escondida até que se torne perceptível. Religiões vivas constituem em tradições herdadas ali e fiéis aqui, em intelectualizações de teólogos contemporâneos, em respostas antigas e perguntas modernas. Dentre esses pólos ela urge um equilíbrio, demanda que, às vezes, é acompanhada por descargas e estrondos.

Os cientistas da Religião são seres humanos. Apesar disso, quando exercem sua profissão não se devem deixar influenciar por sentimentos como “chato”, “horroroso” ou “fascinante”.

Referências.
GRESCHAT, Hans, Jurgen. O que é a religião?.- São Paulo: Paulinas, 2005. – (Coleção repensando a religião).
HOCK, Klauss. Introdução á Ciência da Religião. São Paulo – SP: Edições Loyola, 2010,   


    

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O Ensino Religioso e o Estado laico


Na obra Ensino Religioso: construção de uma proposta de João Décio Passos, o autor procurou sistematizar a questão do Ensino Religioso, dividindo o mesmo em três modelos de ensino:

1. O modelo catequético;
2. O modelo confessional; e,
3. O modelo da Ciência da Religião.

O modelo mais indicado para o Ensino Religioso é o da Ciência da Religião. A CR rompe com o modelo catequético e confessional em nome da autonomia pedagógica da disciplina, e, tem como pressuposto uma educação sem proselitismo. Ou seja, a Ciência da Religião é o novo paradigma para a disciplina do Ensino Religioso. Entretanto, o modelo catequético e confessional pode ser levado adiante no contexto da escola particular, desde que pensando nos termos dos princípios da legislação atual.

De acordo com Frank Usarski: "o objetivo da Ciência da Religião é fazer um inventário o mais abrangente possível, de fatos reais do mundo religioso, um entendimento histórico do surgimento e desenvolvimento das religiões particulares, uma identificação e seus contatos mútuos e a investigação de suas inter-relações com as outras áreas da vida. A partir de um estudo de fenômenos religiosos concretos, o material é exposto à uma análise comparada. Isso leva a um entendimento das semelhanças e diferenças de religiões singulares a respeito de suas formas, conteúdos e praticas. O reconhecimento de traços comuns do cientista da religião, permite uma dedução de elementos que caraterizam em geral, ou seja, como um fenômeno antropológico universal".

Mas, um dos problemas para o Ensino Religioso, diz respeito à necessária separação entre Igreja e Estado. As questões que se colocam, então, são de vital importância:

1. Como ensinar a religião ou falar da religião em um estado laico?
2. Como separar Ensino Religioso sem confissão religiosa de catequese ou formação religiosa?

Para responder essas duas questões, é importante reconhecer as funções e os limites de atuação de um Estado laico em matéria de Ensino Religioso: Sendo assim, podemos afirmar que, o Estado laico:

  • Não tem uma religião oficial, mas adota princípios da liberdade religiosa e a autonomia das organizações religiosas da sociedade;
  • Deve manter as fronteiras entre a liberdade religiosa e a aplicação do dinheiro público, daí a compreensão de que o Ensino religioso não pode prever a confessionalidade, para que seja mantida a relação constitucional entre Igreja e Estado; 
  • Respeita todas as crenças religiosas, desde que não atentem contra a ordem pública, assim como a não crença religiosa. Ele não apoia e nem dificulta a difusão das ideias religiosas nem das ideias contrárias à religião;
  • Não pode admitir imposições institucionais religiosas, para que tal ou qual lei seja aprovada, nem que alguma política pública seja mudada por causa dos valores religiosos;
  • Não pode desconhecer que os religiosos de todas as crenças têm direito de influenciar a ordem política, fazendo valer, tanto quanto os não crentes, sua própria versão sobre o que é melhor para toda a sociedade [...]

Na escola o Ensino Religioso tem a função de garantir para todos os educandos a possibilidade de estabelecerem um diálogo sobre a vida. e, como o conhecimento religioso está no substrato cultural, ele contribui para a vida coletiva, na perspectiva unificadora que a expressão religiosa tem, de modo próprio e diverso, diante dos desafios e conflitos. À escola compete prover os educandos de oportunidades de se tornarem capazes de entender os momentos específicas das diversas culturas e religiões. Portanto, o Ensino Religioso como parte integrante da vida escolar é um processo de formação, reflexão, e informação sobre o fenômeno religioso, a partir do contexto social e cultural do educando. É um processo interativo entre educando e educador, na busca da realização enquanto seres humanos inseridos numa sociedade.


Referência:
SOARES, Afonso. M. L; STIGAR Robson. Perspetiva para o Ensino Religioso: uma Ciência da Religião como novo paradigma. In: Revista Rever. Ano 16. no 01, janeiro de 2016.

Ensino Religioso e avaliação



A importância dada hoje ao Ensino Religioso nas escolas suscita questionamentos de ordem religiosa, pedagógica e administrativa importantes. Porém, uma das questões, é se o Ensino Religioso tem sido recebido e valorizado por parte da comunidade educativa, pois, um dos objetivos é contribuir para a formação integral dos alunos. Por isso, a escola oferece ao aluno, por meio do Ensino Religioso, o desafio de compreender o universo complexo das religiões, ajustando-se à ele a fim de favorecer sua integração social e o exercício consciente da cidadania. 
 
O Ensino Religioso mudou e apresentou ao país um novo paradigma no que tange a disciplina e consequentemente na avaliação, por isso, enfrenta diversos desafios para que se efetivem suas propostas. O novo paradigma do Ensino Religioso leva em consideração que o indivíduo é um organismo vivo, inteiro, diverso e particular que precisa ser “educado” não a partir de fórmulas, mas, para ser cada vez mais sensível, crítico, reflexivo e atuante.

O professor ao abordar conteúdos da disciplina, busca contemplar o todo, superando assim, a visão fragmentada e a simples reprodução de conhecimentos. O professor é juntamente com seus alunos um pesquisador e, como tal, deve instigar cada educando a "aprender a aprender", por isso, o Ensino Religioso adquiriu um perfil de maior rigor científico e respeito para com as religiões do mundo.  

Partindo das diretrizes legais, o Ensino Religioso adota uma perspectiva que prioriza a diversidade e a pluralidade das expressões religiosas. O respeito pela liberdade religiosa de cada educando deve ser possibilitado pela escola por meio de educadores devidamente preparados. Porém, um dos grandes problemas do ensino-aprendisagem é a questão da avaliação. A disciplina do Ensino Religioso não foge a regra, por isso, nunca é demais falar sobre a importância e a função da avaliação:
  • A avaliação faz parte do processo metodológico, por isso, é um elemento integrador entre o aluno e o professor;
  • A avaliação permite ao professor conhecer o progresso do aluno e reelaborar a sua prática pedagógica quando necessário;
  • O ato de avaliar torna-se um instrumento insubstituível no processo de conhecer aquilo que se aprendeu, bem como a verificação do instrumento metodológico adotado pelo sistema e pelo professor;
  • A avaliação é um processo que influência significativamente toda a prática escolar e as relações interpessoais [...]  
É importante assinalar que na avaliação na disciplina do Ensino Religioso, não há a intenção de aprovar ou reprovar o aluno, pois, sua função orientadora e diagnóstica conduz o planejamento pedagógico. Essa avaliação parte do princípio da inclusão e os conteúdos e processos terão sempre em vista a diversidade, ou seja, o foco na alteridade é norteador da própria filosofia da disciplina do Ensino Religioso.  

A avaliação no Ensino Religioso deve acontecer conforme os outros componentes curriculares, avaliando de ensino-aprendizagem, pois:  
  • Há um conteúdo específico desenvolvido, que gera apropriação de conhecimento;
  • Há objetivos a serem alcançados, tanto pelo educandos como pelos educadores;
  • A avaliação é diagnóstica, processual segundo as orientações do Projeto Educativo;
  • O objetivo da avaliação abrange conteúdos, atitudes e habilidades de tal modo que: 
  • Ao avaliar atitudes, deve-se evitar todo o tipo de juízo de valor, por parte do educador; 
  • Não se trata de avaliar o aspeto subjetivo de adesão à fé e de sua evidência;
  • O conteúdo do Ensino Religioso, assim como o das demais disciplinas, deve ser meio para formar integralmente o educando. 

A metodologia na avaliação no Ensino Religioso, consiste na organização de passos a serem dados, a fim de que o processo educativo se efetive, cumprindo dessa forma os objetivos propostos, assim:
  • Cada aula deve ter um ponto introdutório, capaz de produzir motivação, organização do espaço interior e exterior, bem como a apresentação do tema a ser desenvolvido de forma interessante;
  • Realização de observação-reflexão-informação de forma dinâmica com o objetivo de descodificar e analisar os elementos básicos que compõe o fenômeno religioso de forma progressiva através do diálogo inter-religioso;
  • Realização de uma síntese, na qual o fechamento de uma aula consiste na clareza dos elementos mais importantes que constituem o objeto estudado.    
Antes de tudo, o professor deverá ter a consciência multi-cultural, ou seja, precisa estar consciente de que trabalha numa sociedade, onde a verdadeira multiplicação de culturas e religiões nos cerca de todos os lados, por isso, deverá ter abertura para a alteridade, isto é precisa respeitar o posicionamento religioso de seus alunos. Não poderá chegar na sala de aula e decretar: "como a maioria dos alunos são católicos, vamos dar educação religiosa católica". Estaria incorrendo ao proselitismo religioso, excluído pela lei atual.


Referências:

Ensino Religioso e Cidadania: textos dinâmicos/organização Mundo Jovem. - Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004. 
LIMA, Ronald. Novas Perspetivas para o Ensino Religioso no Brasil. - 1a edição, 2016. 
Programa do Ensino Religioso: Província do Brasil Centro-Leste. Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2006.
SCHLOGL, Emerli. Ensino Religioso: Perspetivas para os anos finais do ensino fundamental e para o ensino médio. - Curitiba: Ibpex, 2009. 

quarta-feira, 29 de junho de 2016

O diagnóstico da Pós-modernidade de Zygmunt Bauman




"A obra do Sociólogo Zygmunt Bauman, pode nos oferecer um diagnóstico das inúmeras faces da nossa sociedade paralizada pelo medo. A série 'O diagnóstico de Zygmunt Bauman' para a Pós-modernidade, reflete sobre o despertar do sono da modernidade, a crença na razão e na vida administrada.Discutem a Pós-modernidade em suas varios aspetos, o Cientista da Religião Frank Usarski , os Filosófos, Luiz Felipe Pondé e Franklin Leopoldo e Silva e a Psicanalista e professora Catherina Koltai," 



Frank Usarski - Religião na pós-modernidade primeira parte

Primeira Parte - subparte 1 - de uma palestra de Frank Usarski, Professor da PUC, sobre a Religião na Pós-Modernidade. Uma análise baseada no pensamento de Zygmunt Bauman.


Segunda parte


Terceira parte


Luiz Felipe Pondé - A Pós-Modernidade (Zygmunt Bauman)


Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé filosofo brasileiro que nos guia neste vídeo, em uma conversa filosófica, pela perspectiva do filosofo polonês Zygmunt Bauman, a crise no homem pós-moderno pela busca da felicidade, sobre seus valores e suas buscas,e os resultados das utopias criada pelo homem moderno através da razão.




Franklin Leopoldo e Silva - A ética pós-moderna

A pós-modernidade, conceito filosófico, social e psicológico, é marcada por uma série de desafios. Sua raiz é o despertar do sono dogmático da modernidade e sua crença na razão instrumental e na vida administrada. As utopias modernas jazem sob os escombros do projeto iluminista. Neste cenário, a obra do sociólogo Zymunt Bauman pode nos fornecer um diagnóstico das inúmeras faces de nossa sociedade paralisada pelo medo.



Catherina Koltai: A família pós moderna amor e liberdade

Catherina Koltai discute a possibilidade de se amar depois de toda liberdade conquistada desde a consolidação da modernidade. A partir de reflexões sobre as obras de Freud e Zygmunt Bauman que tratam do mal estar, ela reflete sobre as diferenças entre a infelicidade moderna e a infelicidade pós-moderna. Ela põe em discussão a percepção de que o moderno era infeliz porque era civilizado e reprimido e o pós-moderno é infeliz porque é livre.



LER MAIS EM: 

MELCHIOR, Marcelo Nascimento do : A religião Pós-moderna em Zygmunt Bauman. Disponível em: http://www.abhr.org.br/wp-content/uploads/2013/01/art_MELCHIOR_pos_moderna_bauman.pdf


segunda-feira, 27 de junho de 2016

QUEM FOI MADRE TERESA DE CALCUTÁ?



Madre Teresa de Calcutá, santa ou fraude?

Madre Teresa de Calcutá é considerada uma santa. Assim a opinião pública decidiu – e, daí para frente, sua santidade não foi mais questionada, fizesse ela o que fizesse.

O modo como aceitava dinheiro e favores de ladrões e corruptos. Um dos casos mais famosos é o de Charles Keatings, do Lincoln Savings and Loan, da Califórnia.

Charles era um católico fundamentalista. Foi condenado a 10 anos de prisão por roubar em torno de US$ 252.000.000 de 17.000 fundos de aposentadoria de gente humilde. Mas, deu a ela mais de um milhão de dólares e lhe emprestava com freqüência seu avião particular.

Em troca, ele fazia uso de seu prestígio como “santa”. E ainda queria se comparar ao apóstolo Paulo... Note-se que o apóstolo Paulo vivia do próprio trabalho e não às custas dos crentes.

As pessoas enviavam a ela milhões e milhões de dólares em donativos para que ela construísse seus hospitais. Apenas numa conta, nos EUA, havia mais de US$ 50 milhões. O resto estava espalhado pelo mundo (menos na Índia, onde ela teria que prestar contas pelo que recebia).

Entretanto, esse dinheiro era usado para construir novos conventos da ordem pelo mundo. Quando ela morreu, as irmãs já estavam instaladas em 150 países. Seus hospitais eram, na verdade, galpões rústicos e mal-equipados aonde as pessoas iam para morrer.

Não havia médicos nem higiene e os “diagnósticos” eram feitos por leigos, como as irmãs e os voluntários. E não havia interesse em se encaminhar os doentes para hospitais de verdade. A idéia era a de que se deitassem nas macas ou no chão e sofressem até morrer.

Em todos eles havia um quadro na parede que dizia: “Hoje eu vou para o Céu”. Faltava morfina, anestésicos e antibióticos. Apesar dos milhões nos bancos, que permitiriam a construção de hospitais-modelo, a economia era a palavra de ordem. As injeções, quando havia o que injetar, eram feitas com agulhas lavadas na torneira e que eram usadas até ficarem rombudas e provocarem enorme sofrimento nos doentes.

Penalizadas, as voluntárias pediam dinheiro para comprar agulhas novas; mas, as irmãs insistiam na virtude da pobreza. E quando uma irmã ficava doente? “Reze”, era a resposta.

Aliás, madre Teresa dava grande importância ao sofrimento. Dizia que o sofrimento dos pobres purificava o mundo e que eles davam um belo exemplo (e, naturalmente, não fazia nada para reduzi-lo). Será que alguém perguntou a opinião dos pobres? Note-se, contudo, que quando ela própria ficava doente, corria a internar-se nos melhores e mais caros hospitais, jamais em suas “Casas de Moribundos”.

Apesar de toda sua fortuna, madre Teresa insistia em manter a imagem de uma ordem de irmãs pobres e mendicantes. Tudo tinha que ser mendigado a cada dia: comida, roupas, serviços. Se a coleta fosse pequena, comia-se menos.

Em certa ocasião, as irmãs receberam um grande carregamento de tomates e, para que não se estragassem, fizeram extrato. Foram severamente repreendidas por madre Teresa: “Quem guarda comida de um dia para o outro, está duvidando da Providência Divina”.

Assista este video e tire suas proprias conlusões!!

MADRE TERESA DE CALCUTÁ
Santa ou demônio?


AJO DO INFERNO- MADRE TERESA DE CALCUTÁ


MADRE TERESA DE CALCUTÁ 
(Filme completo)

Leia mais: http://forum.antinovaordemmundial.com/Topico-madre-teresa-de-calcut%C3%A1-santa-ou-fraude#ixzz4CmnW5xy6

quinta-feira, 16 de junho de 2016

FRANK USARSKI - REFLEXÕES


O que define uma religião?

A diversidade da fé 

Fé e espiritualidade nos tempos modernos 

Interação entre as religiões orientais e ocidentais  

A ciência é maior que a religião? 

Frank Usarski é "Livre Docente na área de Ciências da Religião pela PUC-SP, Doutor com tese sobre os mecanismos e motivos da estigmatização pública de Novos Movimentos Religiosos na Alemanha Ocidental (1987) e pós-doutorado (1992-93) na área de Ciência da Religião pela Universidade de Hannover (Alemanha) sobre o papel das religiões nas Exposições Mundiais entre 1851 e 1900. Desde sua chegada no Brasil em 1998 faz parte do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC-SP. Entre suas atividades acadêmicas destacam-se a pesquisa, o ensino e diversas publicações sobre as Religiões Orientais bem como sobre a história e o perfil atual da Ciência da Religião. Além disso é fundador e editor da Revista de Estudos da Religião (REVER) e líder do grupo de pesquisa Centro de Estudos de Religiões Alternativas de Origem Oriental no Brasil (CERAL)". (informações extraídas do currículo Lates em 16/06/2016)   

terça-feira, 14 de junho de 2016

As religiões são boas ou ruins?

Kwame Anthony Appiah: 
Religiões são boas ou ruins? (É uma pegadinha)


As pessoas estão sempre a falar de religião. O grande Christopher Hitchens, já falecido, escreveu um livro chamado "Deus Não É Grande", cujo subtítulo era "Como a religião envenena tudo". Mas no mês passado, na revista Time, o rabi David Wolpe que, vim a saber, é chamado o rabi da América, disse para contrabalançar essa caracterização negativa que não pode haver nenhuma forma de mudança social a não ser através da religião organizada.

Observações deste tipo, tanto negativas como positivas, são muito antigas. Tenho aqui no meu bolso uma delas do século I a.C, de Lucrécio, o autor de "Sobre a Natureza das Coisas", que disse: "Tantum religio potuit suadere malorum" — devia ter aprendido isto de cor, ou seja, "A tantos males pode a religião persuadir". Referia-se à decisão de Agamémnon de pôr a sua filha Ifigénia no altar de sacrifícios, a fim de preservar as perspetivas do seu exército. Portanto, tem havido longos debates sobre religião ao longo dos séculos, podemos mesmo dizer, ao longo de milênios. As pessoas falam muito sobre isso e dizem coisas boas e más e coisas indiferentes sobre ela.

Aquilo de que vos quero convencer hoje é uma afirmação muito simples: é que estes debates de certa forma, são estapafúrdios, porque não existe essa coisa de religião sobre a qual se façam essas afirmações. Não há uma coisa chamada religião e, portanto, não pode ser boa ou má. Nem sequer pode ser indiferente. Se pensarmos nas afirmações sobre a não existência das coisas, uma forma óbvia de tentar estabelecer a não existência duma determinada coisa será apresentar uma definição para essa coisa e depois ver se há alguma coisa que a satisfaça. Para começar, vou iniciar-me nessa via.

Se procurarem nos dicionários e pensarem nisso, uma definição muito natural de religião é a que envolve a crença em deuses ou em seres espirituais. Como disse, isto é em muitos dicionários, mas também a encontraremos na obra de Sir Edward Tylor, que foi o primeiro professor de antropologia em Oxford, um dos primeiros antropólogos modernos. No seu livro sobre a cultura primitiva, diz que o cerne da religião é aquilo a que chamou animismo, ou seja, a crença numa ação espiritual, a crença em espíritos. O primeiro problema para esta definição vem num recente romance de Paul Beatty chamado "Tuff". Um homem conversa com um rabi. O rabi diz que não acredita em Deus. O homem diz: "És um rabi, como é que não acreditas em Deus?" E a resposta é: "É o que há de grandioso em ser judeu. "Não é preciso acreditar num Deus 'per se', "basta ser judeu". Portanto, se este homem é um rabi, e um rabi judeu, e se é preciso acreditar em Deus para ser religioso, temos que tirar a conclusão muito pouco intuitiva de que, se é possível ser um rabi judeu sem acreditar em Deus, o judaísmo não é uma religião. Isto parece um pensamento muito pouco intuitivo.

Há outro argumento contra esta perspectiva. Um amigo meu, um amigo meu indiano, foi à casa do avô, quando ainda era muito jovem, em criança, e disse-lhe: "Quero falar de religião". O avô disse: "És muito novo. Volta quando fores adolescente". Ele voltou quando era adolescente e disse ao avô: "Agora talvez seja tarde demais "porque descobri que não acredito em deuses". E o avô, que era um homem sábio, disse: "Oh, então pertences ao ramo ateísta "da tradição hindu".

E, por fim, há este homem que todos sabem que não acredita em Deus. Chama-se Dalai Lama. Brinca muitas vezes por ser um dos principais ateus do mundo. Mas é verdade, porque a religião do Dalai Lama não envolve a crença em Deus.

Ora bem, podem pensar que isto apenas mostra que eu vos dei a definição errada e que devia aparecer com outra definição qualquer e testá-la contra estes casos. Procurar e descobrir qualquer coisa que capte o judaísmo ateísta, o hinduísmo ateísta, e o budismo ateísta como formas de religiosidade. Na verdade, acho que é uma má ideia. E acho que é uma má ideia porque penso que não é assim que funciona o nosso conceito de religião. Penso que o nosso conceito de religião funciona com aquele que temos. Temos uma lista de religiões paradigmas e dos seus subgrupos. Se aparece alguma coisa de novo que pretenda ser uma religião, o que perguntamos, é: "Será parecida com alguma destas?" E penso que não é só como pensamos sobre a religião, mas é, como sempre foi, do nosso ponto de vista, que tudo nessa lista tem que ser uma religião. Por isso penso que um conceito de religião, que exclua o budismo e o judaísmo, tem hipóteses de ser um bom começo porque estes estão na nossa lista. Mas, porque é que temos esta lista? O que se passa? Como é que aconteceu termos esta lista?

Penso que a resposta é muito simples e, portanto, crua e controversa. De certeza muita gente discordará, mas eis a minha história. Verdadeira ou não, é uma história que eu acho que vos dará uma boa ideia de como a lista poderá ter aparecido. Talvez vos possa pôr a pensar sobre o uso que a lista pode ter. Penso que a resposta é: Os viajantes europeus, por volta da época de Colombo, começaram a passear pelo mundo. Eram provenientes duma cultura cristã e, quando chegavam a um sítio novo, reparavam que alguns povos não tinham cristianismo e faziam a si mesmos esta pergunta: "O que é que eles têm em vez do cristianismo?" E essa lista, na sua essência, foi construída, foi formada pelas coisas que os outros povos tinham, em vez do cristianismo.

Ora, há uma dificuldade em prosseguir por esta via. O cristianismo é extremamente... mesmo nesta lista, é uma tradição extremamente específica. Tem nele todo o tipo de coisas que são muito, muito particulares que são o resultado da especificidade da história cristã. E uma coisa que está no seu âmago, uma coisa que está no âmago da compreensão do cristianismo, que é o resultado da história específica do cristianismo, é que é uma religião recheada de credos. É uma religião em que as pessoas se preocupam realmente sobre se acreditam no que é correto. A história interior do cristianismo é, sobretudo, a história de pessoas que matam outras porque elas acreditavam na coisa errada e também está envolvida em guerras com outras religiões, que começam obviamente na Idade Média, na luta com o Islão, em que, de novo, foi a infidelidade, o fato de não acreditarem nas coisas certas, que pareciam tão ofensivas ao mundo cristão. É uma história muito específica e especial que o cristianismo tem e não é em toda a parte que se põe tudo numa lista como esta. Aqui há outro problema. Aconteceu uma coisa muito específica. Já fora anunciada antes, mas aconteceu uma coisa muito específica na história do tipo de cristianismo que vemos à nossa volta, sobretudo hoje nos Estados Unidos. Aconteceu no final do século XIX. Essa coisa específica que aconteceu no final do século XIX foi uma espécie de acordo que foi cancelado entre a ciência, essa nova forma de organizar a autoridade intelectual, e a religião. Se pensarmos no século XVIII, se pensarmos na vida intelectualantes do final do século XIX, tudo o que fazíamos, tudo aquilo em que pensávamos, quer fosse o mundo físico, o mundo humano, o mundo natural, para além do mundo humano ou da moral, tudo o que fazíamos estava enquadrado num cenário dum conjunto de pressupostos que eram religiosos: os pressupostos cristãos. Não podíamos dar uma explicação do mundo natural que não dissesse qualquer coisa sobre a sua relação, por exemplo, com a história da criação na tradição de Abraão, a história da criação no primeiro livro da Torá. Portanto, tudo estava enquadrado desse modo.

Mas isso mudou no final do século XIX. Pela primeira vez, é possível que as pessoas desenvolvam carreiras intelectuais sérias, como os historiadores naturais, como Darwin. Darwin preocupou-se com a relação entre o que dizia e as verdades da religião, mas pôde prosseguir, pôde escrever livro sobre o seu tema sem ter que dizer qual era a relação com as afirmações religiosas. Os geólogos puderam falar sobre isso cada vez mais. No início do século XIX, se os geólogos falassem sobre a idade da Terra, teriam que explicar se isso era consistente, com a idade da Terra implícita no relato do Génesis. No final do século XIX, podíamos escrever um manual de geologia com argumentos sobre a idade da Terra. Portanto, foi uma grande mudança. Essa divisão intelectual do trabalho ocorre, e de certo modo, solidifica-se, de modo que, no final do século XIX na Europa, há uma real divisão intelectual de trabalho. Podemos fazer todo o tipo de coisas sérias incluindo, de modo crescente, a própria filosofia,sem sermos constrangidos pelo pensamento: "O que eu tenho que dizer tem que ser consistente "com as verdades profundas que me foram dadas "pela nossa tradição religiosa".

Imaginem alguém saído desse mundo, desse mundo do final do século XIX, a chegar ao país em que eu cresci, o Gana, à sociedade em que eu cresci, em Ashanti a chegar a esse mundo no virar do século XX com esta pergunta que eu pus na lista: "O que é que eles têm em vez do cristianismo?"

Bem, há aqui uma coisa em que teriam reparado. A propósito, houve uma pessoa que reparou. Foi o capitão Rattray. Foi um antropólogo do governo britânico, que escreveu um livro sobre a religião ashanti.

Isto é um disco-alma, Há muitos no Museu Britânico. Podia dar-vos uma história interessante, diferente de como há tantas coisas da minha sociedade que acabaram no Museu Britânico... Mas não há tempo para isso. Este objeto é um disco-alma. O que é um disco-alma? Usava-se ao pescoço dos lavadores de almas do rei ashanti. Qual era a sua função? Lavar a alma do rei. Levaria muito tempo para explicar como é que uma alma era uma coisa que podia ser lavada, mas Rattray percebeu que era uma religião porque havia almas em jogo.

E do mesmo modo, havia muitas outras coisas, muitas outras práticas. Por exemplo, sempre que alguém tomava uma bebida, despejava um pouco no chão no que se chamava uma libação. e davam um pouco aos antepassados. O meu pai fazia isso. Quando abria uma garrafa de "whisky", — e fazia-o com frequência — tirava a rolha e despejava um pouquinho no chão, falava com Akroma-Ampim, o fundador da nossa linhagem. ou com Yao Antony, o meu tio-avô, falava com eles, oferecia-lhes um pouco daquilo.

E, por fim, havia enormes cerimoniais públicos. Isto é um desenho do início do séc. XIX de um oficial militar britânico de um cerimonial desses, em que o rei estava envolvido. A função do rei, uma parte principal da sua função, para além de organizar a guerra e coisas dessas, era tomar conta dos túmulos dos seus antepassados. Quando morria um rei bom, o banco onde ele se sentava era enegrecido e colocado no templo real ancestral e, todos os 40 dias, o rei de Ashanti tinha que lá ir e prestar culto aos seus antepassados. Era parte importante do seu cargo. Acreditava-se que se ele não fizesse isso,as coisas desmoronar-se-iam. Portanto, temos aqui uma figura religiosa, — como Rattray teria dito — e também uma figura política.

Tudo isto contou como religião para Rattray. Mas o meu ponto é que, quando olhamos para as vidas dessas pessoas, também percebemos que, sempre que elas fazem qualquer coisa, estão conscientes dos antepassados. Todas as manhãs, ao pequeno-almoço, podemos sair pela porta da rua, fazer uma oferenda ao deus-árvore, o "nyame dua", em frente de casa e, de novo, falar com os deuses, os altos deuses e os baixos deuses, os antepassados, etc. Isto é um mundo em que ainda não se deu a separação entre a religião e a ciência. A religião ainda não foi separada de quaisquer outras áreas da vida e, em especial, o que é fundamental compreender sobre este mundo, é que é um mundo em que a função que a ciência exerce para nós é feita pelo que Rattray vai chamar de religião porque, se querem uma explicação de qualquer coisa, porque é que as colheitas falharam, porque é que está a chover ou não está a chover, se precisam da chuva, se querem saber porque é que o avô morreu, vão apelar a essas mesmas entidades, na mesma linguagem, falar com os mesmos deuses sobre isso. Por outras palavras, esta grande separação entre a religião e a ciência ainda não ocorreu.

Ora bem, isto seria uma curiosidade meramente histórica exceto que, em muitas partes do mundo, isto continua a ser verdade. Tive o privilégio de ir a um casamento outro dia no norte da Namíbia, a 30 km do sul da fronteira com Angola numa aldeia de 200 pessoas. Eram pessoas modernas. Estava lá a Oona Chaplin, de que já devem ter ouvido falar. Uma pessoa da aldeia foi ter com ela e disse: "Vi-a em 'A Guerra dos Tronos'". Portanto, não eram pessoas que estivessem isoladas do nosso mundo mas, apesar disso, para elas, os deuses e os espíritos ainda estão muito presentes. Quando íamos de autocarro para os diversos locais da cerimónia rezavam, não de modo genérico, mas pela segurança da viagem e faziam-no com convicção. Quando me disseram que a minha mãe — a mãe do noivo —estava connosco, não o disseram de modo figurativo. Queriam dizer — apesar de ela já ter morrido —queriam dizer que ela continuava ali. Portanto, em muitos sítios do mundo, hoje em dia, a separação entre a ciência e a religião não ocorreu em muitos sítios do mundo. E, como digo, não são... Este homem trabalhou para o Chase Bank e para o Banco Mundial. (Risos) São cidadãos do mundo tal como nós. mas vêm dum local em que a religião ocupa um papel muito diferente

O que eu queria que vocês pensassem, quando alguém fizer uma grande generalização sobre religião,é que talvez não exista essa coisa de religião, e que, portanto, o que eles dizem, pode não ser verdade.


Translated by Margarida Ferreira
Reviewed by Isabel M. Vaz Belchior