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sábado, 3 de setembro de 2016

Diferentes formas de entender a palavra “religião”



A pergunta pelo conceito e pelo termo religião leva imediatamente ao centro da Ciência da Religião e, ao mesmo tempo, a um de seus debates internos mais importantes, que segundo Klaus Hock, não será concluído num futuro próximo. Mal-entendidos nascem de termos imprecisos. O que é fácil para cientistas exatos é problemático para cientistas da religião, que quase não podem comunicar seus resultados como uma fórmula ou um cálculo.

De acordo com Hans-Jurgen Greschat, a palavra “religião” é como um labirinto. Perde-se nele que não trouxer um fio na mão para se orientar. Logo após a entrada, encontramos ambiguidades. O Uso da palavra “religião” é corriqueiro, mas parece que somente especialistas conhecem o termo “Ciência da Religião”. Os demais articulam a vaga sensação de que se trata de “teologia ou algo semelhante”.

Um dos problemas na definição do termo “religião” reside no fato de que o próprio termo nasceu num contexto cultural e histórico muito específico:
     a.    Primeiro: história intelectual do ocidente;
b.    Segundo: termo universal em contextos históricos e culturais distintas.
Assim, o termo não é usado de forma uniforme, e até sua derivação terminológica é disputada. Basicamente, a palavra latina religio, à qual remonta descreve uma “atuação como consideração” ou a “observância cuidadosa”;
a.   Cícero (104-43 a. C) define religio como cultos deorum, ou seja, como “culto” dos deuses, como “cultivo” ou “adoração” dos deuses;
b.    Lactâncio (séc. III/IV), deriva religio de religare, ou seja, ligar, amarrar), ligar de novo, ligar de volta, levar de volta;
c.  Santo Agostinho (354-430) descreve a religio vera como “verdadeira religião” como aquela que é orientada pelo zelo de reconciliar e “ligar de volta” a alma que se afastou de Deus.
d.    Recentemente foi proposta uma terceira variante: derivar religio de ren ligare, “amarrar a coisa”, no sentido de descansar das inquietudes.

O que define uma religião: Frank Usarski.


Visão do Cientista da Religião sobre o termo "religião"

A perspectiva do Cientista da Religião sobre o objeto “religião” é bem diferente do olhar de outros cientistas ou pessoas comuns. Greschat é de opinião que o objeto pode ser circunscrita em três frases, conforme os cientistas da religião percebem-no:
     a.    Vêm o objeto “religião” como uma totalidade;
b.    Reconhecem que essa totalidade apresenta-se de maneira quádrupla;
c.   Observam que essa totalidade está viva e que, portanto, não pára de se transformar.
Assim, podemos concluir que:

Primeiro: a visão da totalidade torna-se um divisor de águas entre cientistas da religião e outros cientistas que se ocupam esporadicamente da religião. Em outras palavras o Cientista da Religião é um especialista capaz de associar suas investigações especiais à religião como totalidade;

Segundo: as religiões podem ser estudadas como uma totalidade de investigação de acordo com quatro perspectivas: como comunidade, como sistema de atos, como conjunto de doutrinas, ou como sedimentação de experiências;

Terceiro: religiões vivas mudam sem cessar. Por vezes a mudança fica escondida até que se torne perceptível. Religiões vivas constituem em tradições herdadas ali e fiéis aqui, em intelectualizações de teólogos contemporâneos, em respostas antigas e perguntas modernas. Dentre esses pólos ela urge um equilíbrio, demanda que, às vezes, é acompanhada por descargas e estrondos.

Os cientistas da Religião são seres humanos. Apesar disso, quando exercem sua profissão não se devem deixar influenciar por sentimentos como “chato”, “horroroso” ou “fascinante”.

Referências.
GRESCHAT, Hans, Jurgen. O que é a religião?.- São Paulo: Paulinas, 2005. – (Coleção repensando a religião).
HOCK, Klauss. Introdução á Ciência da Religião. São Paulo – SP: Edições Loyola, 2010,   


    

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O Ensino Religioso e o Estado laico


Na obra Ensino Religioso: construção de uma proposta de João Décio Passos, o autor procurou sistematizar a questão do Ensino Religioso, dividindo o mesmo em três modelos de ensino:

1. O modelo catequético;
2. O modelo confessional; e,
3. O modelo da Ciência da Religião.

O modelo mais indicado para o Ensino Religioso é o da Ciência da Religião. A CR rompe com o modelo catequético e confessional em nome da autonomia pedagógica da disciplina, e, tem como pressuposto uma educação sem proselitismo. Ou seja, a Ciência da Religião é o novo paradigma para a disciplina do Ensino Religioso. Entretanto, o modelo catequético e confessional pode ser levado adiante no contexto da escola particular, desde que pensando nos termos dos princípios da legislação atual.

De acordo com Frank Usarski: "o objetivo da Ciência da Religião é fazer um inventário o mais abrangente possível, de fatos reais do mundo religioso, um entendimento histórico do surgimento e desenvolvimento das religiões particulares, uma identificação e seus contatos mútuos e a investigação de suas inter-relações com as outras áreas da vida. A partir de um estudo de fenômenos religiosos concretos, o material é exposto à uma análise comparada. Isso leva a um entendimento das semelhanças e diferenças de religiões singulares a respeito de suas formas, conteúdos e praticas. O reconhecimento de traços comuns do cientista da religião, permite uma dedução de elementos que caraterizam em geral, ou seja, como um fenômeno antropológico universal".

Mas, um dos problemas para o Ensino Religioso, diz respeito à necessária separação entre Igreja e Estado. As questões que se colocam, então, são de vital importância:

1. Como ensinar a religião ou falar da religião em um estado laico?
2. Como separar Ensino Religioso sem confissão religiosa de catequese ou formação religiosa?

Para responder essas duas questões, é importante reconhecer as funções e os limites de atuação de um Estado laico em matéria de Ensino Religioso: Sendo assim, podemos afirmar que, o Estado laico:

  • Não tem uma religião oficial, mas adota princípios da liberdade religiosa e a autonomia das organizações religiosas da sociedade;
  • Deve manter as fronteiras entre a liberdade religiosa e a aplicação do dinheiro público, daí a compreensão de que o Ensino religioso não pode prever a confessionalidade, para que seja mantida a relação constitucional entre Igreja e Estado; 
  • Respeita todas as crenças religiosas, desde que não atentem contra a ordem pública, assim como a não crença religiosa. Ele não apoia e nem dificulta a difusão das ideias religiosas nem das ideias contrárias à religião;
  • Não pode admitir imposições institucionais religiosas, para que tal ou qual lei seja aprovada, nem que alguma política pública seja mudada por causa dos valores religiosos;
  • Não pode desconhecer que os religiosos de todas as crenças têm direito de influenciar a ordem política, fazendo valer, tanto quanto os não crentes, sua própria versão sobre o que é melhor para toda a sociedade [...]

Na escola o Ensino Religioso tem a função de garantir para todos os educandos a possibilidade de estabelecerem um diálogo sobre a vida. e, como o conhecimento religioso está no substrato cultural, ele contribui para a vida coletiva, na perspectiva unificadora que a expressão religiosa tem, de modo próprio e diverso, diante dos desafios e conflitos. À escola compete prover os educandos de oportunidades de se tornarem capazes de entender os momentos específicas das diversas culturas e religiões. Portanto, o Ensino Religioso como parte integrante da vida escolar é um processo de formação, reflexão, e informação sobre o fenômeno religioso, a partir do contexto social e cultural do educando. É um processo interativo entre educando e educador, na busca da realização enquanto seres humanos inseridos numa sociedade.


Referência:
SOARES, Afonso. M. L; STIGAR Robson. Perspetiva para o Ensino Religioso: uma Ciência da Religião como novo paradigma. In: Revista Rever. Ano 16. no 01, janeiro de 2016.

Ensino Religioso e avaliação



A importância dada hoje ao Ensino Religioso nas escolas suscita questionamentos de ordem religiosa, pedagógica e administrativa importantes. Porém, uma das questões, é se o Ensino Religioso tem sido recebido e valorizado por parte da comunidade educativa, pois, um dos objetivos é contribuir para a formação integral dos alunos. Por isso, a escola oferece ao aluno, por meio do Ensino Religioso, o desafio de compreender o universo complexo das religiões, ajustando-se à ele a fim de favorecer sua integração social e o exercício consciente da cidadania. 
 
O Ensino Religioso mudou e apresentou ao país um novo paradigma no que tange a disciplina e consequentemente na avaliação, por isso, enfrenta diversos desafios para que se efetivem suas propostas. O novo paradigma do Ensino Religioso leva em consideração que o indivíduo é um organismo vivo, inteiro, diverso e particular que precisa ser “educado” não a partir de fórmulas, mas, para ser cada vez mais sensível, crítico, reflexivo e atuante.

O professor ao abordar conteúdos da disciplina, busca contemplar o todo, superando assim, a visão fragmentada e a simples reprodução de conhecimentos. O professor é juntamente com seus alunos um pesquisador e, como tal, deve instigar cada educando a "aprender a aprender", por isso, o Ensino Religioso adquiriu um perfil de maior rigor científico e respeito para com as religiões do mundo.  

Partindo das diretrizes legais, o Ensino Religioso adota uma perspectiva que prioriza a diversidade e a pluralidade das expressões religiosas. O respeito pela liberdade religiosa de cada educando deve ser possibilitado pela escola por meio de educadores devidamente preparados. Porém, um dos grandes problemas do ensino-aprendisagem é a questão da avaliação. A disciplina do Ensino Religioso não foge a regra, por isso, nunca é demais falar sobre a importância e a função da avaliação:
  • A avaliação faz parte do processo metodológico, por isso, é um elemento integrador entre o aluno e o professor;
  • A avaliação permite ao professor conhecer o progresso do aluno e reelaborar a sua prática pedagógica quando necessário;
  • O ato de avaliar torna-se um instrumento insubstituível no processo de conhecer aquilo que se aprendeu, bem como a verificação do instrumento metodológico adotado pelo sistema e pelo professor;
  • A avaliação é um processo que influência significativamente toda a prática escolar e as relações interpessoais [...]  
É importante assinalar que na avaliação na disciplina do Ensino Religioso, não há a intenção de aprovar ou reprovar o aluno, pois, sua função orientadora e diagnóstica conduz o planejamento pedagógico. Essa avaliação parte do princípio da inclusão e os conteúdos e processos terão sempre em vista a diversidade, ou seja, o foco na alteridade é norteador da própria filosofia da disciplina do Ensino Religioso.  

A avaliação no Ensino Religioso deve acontecer conforme os outros componentes curriculares, avaliando de ensino-aprendizagem, pois:  
  • Há um conteúdo específico desenvolvido, que gera apropriação de conhecimento;
  • Há objetivos a serem alcançados, tanto pelo educandos como pelos educadores;
  • A avaliação é diagnóstica, processual segundo as orientações do Projeto Educativo;
  • O objetivo da avaliação abrange conteúdos, atitudes e habilidades de tal modo que: 
  • Ao avaliar atitudes, deve-se evitar todo o tipo de juízo de valor, por parte do educador; 
  • Não se trata de avaliar o aspeto subjetivo de adesão à fé e de sua evidência;
  • O conteúdo do Ensino Religioso, assim como o das demais disciplinas, deve ser meio para formar integralmente o educando. 

A metodologia na avaliação no Ensino Religioso, consiste na organização de passos a serem dados, a fim de que o processo educativo se efetive, cumprindo dessa forma os objetivos propostos, assim:
  • Cada aula deve ter um ponto introdutório, capaz de produzir motivação, organização do espaço interior e exterior, bem como a apresentação do tema a ser desenvolvido de forma interessante;
  • Realização de observação-reflexão-informação de forma dinâmica com o objetivo de descodificar e analisar os elementos básicos que compõe o fenômeno religioso de forma progressiva através do diálogo inter-religioso;
  • Realização de uma síntese, na qual o fechamento de uma aula consiste na clareza dos elementos mais importantes que constituem o objeto estudado.    
Antes de tudo, o professor deverá ter a consciência multi-cultural, ou seja, precisa estar consciente de que trabalha numa sociedade, onde a verdadeira multiplicação de culturas e religiões nos cerca de todos os lados, por isso, deverá ter abertura para a alteridade, isto é precisa respeitar o posicionamento religioso de seus alunos. Não poderá chegar na sala de aula e decretar: "como a maioria dos alunos são católicos, vamos dar educação religiosa católica". Estaria incorrendo ao proselitismo religioso, excluído pela lei atual.


Referências:

Ensino Religioso e Cidadania: textos dinâmicos/organização Mundo Jovem. - Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004. 
LIMA, Ronald. Novas Perspetivas para o Ensino Religioso no Brasil. - 1a edição, 2016. 
Programa do Ensino Religioso: Província do Brasil Centro-Leste. Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2006.
SCHLOGL, Emerli. Ensino Religioso: Perspetivas para os anos finais do ensino fundamental e para o ensino médio. - Curitiba: Ibpex, 2009. 

quarta-feira, 29 de junho de 2016

O diagnóstico da Pós-modernidade de Zygmunt Bauman




"A obra do Sociólogo Zygmunt Bauman, pode nos oferecer um diagnóstico das inúmeras faces da nossa sociedade paralizada pelo medo. A série 'O diagnóstico de Zygmunt Bauman' para a Pós-modernidade, reflete sobre o despertar do sono da modernidade, a crença na razão e na vida administrada.Discutem a Pós-modernidade em suas varios aspetos, o Cientista da Religião Frank Usarski , os Filosófos, Luiz Felipe Pondé e Franklin Leopoldo e Silva e a Psicanalista e professora Catherina Koltai," 



Frank Usarski - Religião na pós-modernidade primeira parte

Primeira Parte - subparte 1 - de uma palestra de Frank Usarski, Professor da PUC, sobre a Religião na Pós-Modernidade. Uma análise baseada no pensamento de Zygmunt Bauman.


Segunda parte


Terceira parte


Luiz Felipe Pondé - A Pós-Modernidade (Zygmunt Bauman)


Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé filosofo brasileiro que nos guia neste vídeo, em uma conversa filosófica, pela perspectiva do filosofo polonês Zygmunt Bauman, a crise no homem pós-moderno pela busca da felicidade, sobre seus valores e suas buscas,e os resultados das utopias criada pelo homem moderno através da razão.




Franklin Leopoldo e Silva - A ética pós-moderna

A pós-modernidade, conceito filosófico, social e psicológico, é marcada por uma série de desafios. Sua raiz é o despertar do sono dogmático da modernidade e sua crença na razão instrumental e na vida administrada. As utopias modernas jazem sob os escombros do projeto iluminista. Neste cenário, a obra do sociólogo Zymunt Bauman pode nos fornecer um diagnóstico das inúmeras faces de nossa sociedade paralisada pelo medo.



Catherina Koltai: A família pós moderna amor e liberdade

Catherina Koltai discute a possibilidade de se amar depois de toda liberdade conquistada desde a consolidação da modernidade. A partir de reflexões sobre as obras de Freud e Zygmunt Bauman que tratam do mal estar, ela reflete sobre as diferenças entre a infelicidade moderna e a infelicidade pós-moderna. Ela põe em discussão a percepção de que o moderno era infeliz porque era civilizado e reprimido e o pós-moderno é infeliz porque é livre.



LER MAIS EM: 

MELCHIOR, Marcelo Nascimento do : A religião Pós-moderna em Zygmunt Bauman. Disponível em: http://www.abhr.org.br/wp-content/uploads/2013/01/art_MELCHIOR_pos_moderna_bauman.pdf


segunda-feira, 27 de junho de 2016

QUEM FOI MADRE TERESA DE CALCUTÁ?



Madre Teresa de Calcutá, santa ou fraude?

Madre Teresa de Calcutá é considerada uma santa. Assim a opinião pública decidiu – e, daí para frente, sua santidade não foi mais questionada, fizesse ela o que fizesse.

O modo como aceitava dinheiro e favores de ladrões e corruptos. Um dos casos mais famosos é o de Charles Keatings, do Lincoln Savings and Loan, da Califórnia.

Charles era um católico fundamentalista. Foi condenado a 10 anos de prisão por roubar em torno de US$ 252.000.000 de 17.000 fundos de aposentadoria de gente humilde. Mas, deu a ela mais de um milhão de dólares e lhe emprestava com freqüência seu avião particular.

Em troca, ele fazia uso de seu prestígio como “santa”. E ainda queria se comparar ao apóstolo Paulo... Note-se que o apóstolo Paulo vivia do próprio trabalho e não às custas dos crentes.

As pessoas enviavam a ela milhões e milhões de dólares em donativos para que ela construísse seus hospitais. Apenas numa conta, nos EUA, havia mais de US$ 50 milhões. O resto estava espalhado pelo mundo (menos na Índia, onde ela teria que prestar contas pelo que recebia).

Entretanto, esse dinheiro era usado para construir novos conventos da ordem pelo mundo. Quando ela morreu, as irmãs já estavam instaladas em 150 países. Seus hospitais eram, na verdade, galpões rústicos e mal-equipados aonde as pessoas iam para morrer.

Não havia médicos nem higiene e os “diagnósticos” eram feitos por leigos, como as irmãs e os voluntários. E não havia interesse em se encaminhar os doentes para hospitais de verdade. A idéia era a de que se deitassem nas macas ou no chão e sofressem até morrer.

Em todos eles havia um quadro na parede que dizia: “Hoje eu vou para o Céu”. Faltava morfina, anestésicos e antibióticos. Apesar dos milhões nos bancos, que permitiriam a construção de hospitais-modelo, a economia era a palavra de ordem. As injeções, quando havia o que injetar, eram feitas com agulhas lavadas na torneira e que eram usadas até ficarem rombudas e provocarem enorme sofrimento nos doentes.

Penalizadas, as voluntárias pediam dinheiro para comprar agulhas novas; mas, as irmãs insistiam na virtude da pobreza. E quando uma irmã ficava doente? “Reze”, era a resposta.

Aliás, madre Teresa dava grande importância ao sofrimento. Dizia que o sofrimento dos pobres purificava o mundo e que eles davam um belo exemplo (e, naturalmente, não fazia nada para reduzi-lo). Será que alguém perguntou a opinião dos pobres? Note-se, contudo, que quando ela própria ficava doente, corria a internar-se nos melhores e mais caros hospitais, jamais em suas “Casas de Moribundos”.

Apesar de toda sua fortuna, madre Teresa insistia em manter a imagem de uma ordem de irmãs pobres e mendicantes. Tudo tinha que ser mendigado a cada dia: comida, roupas, serviços. Se a coleta fosse pequena, comia-se menos.

Em certa ocasião, as irmãs receberam um grande carregamento de tomates e, para que não se estragassem, fizeram extrato. Foram severamente repreendidas por madre Teresa: “Quem guarda comida de um dia para o outro, está duvidando da Providência Divina”.

Assista este video e tire suas proprias conlusões!!

MADRE TERESA DE CALCUTÁ
Santa ou demônio?


AJO DO INFERNO- MADRE TERESA DE CALCUTÁ


MADRE TERESA DE CALCUTÁ 
(Filme completo)

Leia mais: http://forum.antinovaordemmundial.com/Topico-madre-teresa-de-calcut%C3%A1-santa-ou-fraude#ixzz4CmnW5xy6

quinta-feira, 16 de junho de 2016

FRANK USARSKI - REFLEXÕES


O que define uma religião?

A diversidade da fé 

Fé e espiritualidade nos tempos modernos 

Interação entre as religiões orientais e ocidentais  

A ciência é maior que a religião? 

Frank Usarski é "Livre Docente na área de Ciências da Religião pela PUC-SP, Doutor com tese sobre os mecanismos e motivos da estigmatização pública de Novos Movimentos Religiosos na Alemanha Ocidental (1987) e pós-doutorado (1992-93) na área de Ciência da Religião pela Universidade de Hannover (Alemanha) sobre o papel das religiões nas Exposições Mundiais entre 1851 e 1900. Desde sua chegada no Brasil em 1998 faz parte do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC-SP. Entre suas atividades acadêmicas destacam-se a pesquisa, o ensino e diversas publicações sobre as Religiões Orientais bem como sobre a história e o perfil atual da Ciência da Religião. Além disso é fundador e editor da Revista de Estudos da Religião (REVER) e líder do grupo de pesquisa Centro de Estudos de Religiões Alternativas de Origem Oriental no Brasil (CERAL)". (informações extraídas do currículo Lates em 16/06/2016)   

terça-feira, 14 de junho de 2016

As religiões são boas ou ruins?

Kwame Anthony Appiah: 
Religiões são boas ou ruins? (É uma pegadinha)


As pessoas estão sempre a falar de religião. O grande Christopher Hitchens, já falecido, escreveu um livro chamado "Deus Não É Grande", cujo subtítulo era "Como a religião envenena tudo". Mas no mês passado, na revista Time, o rabi David Wolpe que, vim a saber, é chamado o rabi da América, disse para contrabalançar essa caracterização negativa que não pode haver nenhuma forma de mudança social a não ser através da religião organizada.

Observações deste tipo, tanto negativas como positivas, são muito antigas. Tenho aqui no meu bolso uma delas do século I a.C, de Lucrécio, o autor de "Sobre a Natureza das Coisas", que disse: "Tantum religio potuit suadere malorum" — devia ter aprendido isto de cor, ou seja, "A tantos males pode a religião persuadir". Referia-se à decisão de Agamémnon de pôr a sua filha Ifigénia no altar de sacrifícios, a fim de preservar as perspetivas do seu exército. Portanto, tem havido longos debates sobre religião ao longo dos séculos, podemos mesmo dizer, ao longo de milênios. As pessoas falam muito sobre isso e dizem coisas boas e más e coisas indiferentes sobre ela.

Aquilo de que vos quero convencer hoje é uma afirmação muito simples: é que estes debates de certa forma, são estapafúrdios, porque não existe essa coisa de religião sobre a qual se façam essas afirmações. Não há uma coisa chamada religião e, portanto, não pode ser boa ou má. Nem sequer pode ser indiferente. Se pensarmos nas afirmações sobre a não existência das coisas, uma forma óbvia de tentar estabelecer a não existência duma determinada coisa será apresentar uma definição para essa coisa e depois ver se há alguma coisa que a satisfaça. Para começar, vou iniciar-me nessa via.

Se procurarem nos dicionários e pensarem nisso, uma definição muito natural de religião é a que envolve a crença em deuses ou em seres espirituais. Como disse, isto é em muitos dicionários, mas também a encontraremos na obra de Sir Edward Tylor, que foi o primeiro professor de antropologia em Oxford, um dos primeiros antropólogos modernos. No seu livro sobre a cultura primitiva, diz que o cerne da religião é aquilo a que chamou animismo, ou seja, a crença numa ação espiritual, a crença em espíritos. O primeiro problema para esta definição vem num recente romance de Paul Beatty chamado "Tuff". Um homem conversa com um rabi. O rabi diz que não acredita em Deus. O homem diz: "És um rabi, como é que não acreditas em Deus?" E a resposta é: "É o que há de grandioso em ser judeu. "Não é preciso acreditar num Deus 'per se', "basta ser judeu". Portanto, se este homem é um rabi, e um rabi judeu, e se é preciso acreditar em Deus para ser religioso, temos que tirar a conclusão muito pouco intuitiva de que, se é possível ser um rabi judeu sem acreditar em Deus, o judaísmo não é uma religião. Isto parece um pensamento muito pouco intuitivo.

Há outro argumento contra esta perspectiva. Um amigo meu, um amigo meu indiano, foi à casa do avô, quando ainda era muito jovem, em criança, e disse-lhe: "Quero falar de religião". O avô disse: "És muito novo. Volta quando fores adolescente". Ele voltou quando era adolescente e disse ao avô: "Agora talvez seja tarde demais "porque descobri que não acredito em deuses". E o avô, que era um homem sábio, disse: "Oh, então pertences ao ramo ateísta "da tradição hindu".

E, por fim, há este homem que todos sabem que não acredita em Deus. Chama-se Dalai Lama. Brinca muitas vezes por ser um dos principais ateus do mundo. Mas é verdade, porque a religião do Dalai Lama não envolve a crença em Deus.

Ora bem, podem pensar que isto apenas mostra que eu vos dei a definição errada e que devia aparecer com outra definição qualquer e testá-la contra estes casos. Procurar e descobrir qualquer coisa que capte o judaísmo ateísta, o hinduísmo ateísta, e o budismo ateísta como formas de religiosidade. Na verdade, acho que é uma má ideia. E acho que é uma má ideia porque penso que não é assim que funciona o nosso conceito de religião. Penso que o nosso conceito de religião funciona com aquele que temos. Temos uma lista de religiões paradigmas e dos seus subgrupos. Se aparece alguma coisa de novo que pretenda ser uma religião, o que perguntamos, é: "Será parecida com alguma destas?" E penso que não é só como pensamos sobre a religião, mas é, como sempre foi, do nosso ponto de vista, que tudo nessa lista tem que ser uma religião. Por isso penso que um conceito de religião, que exclua o budismo e o judaísmo, tem hipóteses de ser um bom começo porque estes estão na nossa lista. Mas, porque é que temos esta lista? O que se passa? Como é que aconteceu termos esta lista?

Penso que a resposta é muito simples e, portanto, crua e controversa. De certeza muita gente discordará, mas eis a minha história. Verdadeira ou não, é uma história que eu acho que vos dará uma boa ideia de como a lista poderá ter aparecido. Talvez vos possa pôr a pensar sobre o uso que a lista pode ter. Penso que a resposta é: Os viajantes europeus, por volta da época de Colombo, começaram a passear pelo mundo. Eram provenientes duma cultura cristã e, quando chegavam a um sítio novo, reparavam que alguns povos não tinham cristianismo e faziam a si mesmos esta pergunta: "O que é que eles têm em vez do cristianismo?" E essa lista, na sua essência, foi construída, foi formada pelas coisas que os outros povos tinham, em vez do cristianismo.

Ora, há uma dificuldade em prosseguir por esta via. O cristianismo é extremamente... mesmo nesta lista, é uma tradição extremamente específica. Tem nele todo o tipo de coisas que são muito, muito particulares que são o resultado da especificidade da história cristã. E uma coisa que está no seu âmago, uma coisa que está no âmago da compreensão do cristianismo, que é o resultado da história específica do cristianismo, é que é uma religião recheada de credos. É uma religião em que as pessoas se preocupam realmente sobre se acreditam no que é correto. A história interior do cristianismo é, sobretudo, a história de pessoas que matam outras porque elas acreditavam na coisa errada e também está envolvida em guerras com outras religiões, que começam obviamente na Idade Média, na luta com o Islão, em que, de novo, foi a infidelidade, o fato de não acreditarem nas coisas certas, que pareciam tão ofensivas ao mundo cristão. É uma história muito específica e especial que o cristianismo tem e não é em toda a parte que se põe tudo numa lista como esta. Aqui há outro problema. Aconteceu uma coisa muito específica. Já fora anunciada antes, mas aconteceu uma coisa muito específica na história do tipo de cristianismo que vemos à nossa volta, sobretudo hoje nos Estados Unidos. Aconteceu no final do século XIX. Essa coisa específica que aconteceu no final do século XIX foi uma espécie de acordo que foi cancelado entre a ciência, essa nova forma de organizar a autoridade intelectual, e a religião. Se pensarmos no século XVIII, se pensarmos na vida intelectualantes do final do século XIX, tudo o que fazíamos, tudo aquilo em que pensávamos, quer fosse o mundo físico, o mundo humano, o mundo natural, para além do mundo humano ou da moral, tudo o que fazíamos estava enquadrado num cenário dum conjunto de pressupostos que eram religiosos: os pressupostos cristãos. Não podíamos dar uma explicação do mundo natural que não dissesse qualquer coisa sobre a sua relação, por exemplo, com a história da criação na tradição de Abraão, a história da criação no primeiro livro da Torá. Portanto, tudo estava enquadrado desse modo.

Mas isso mudou no final do século XIX. Pela primeira vez, é possível que as pessoas desenvolvam carreiras intelectuais sérias, como os historiadores naturais, como Darwin. Darwin preocupou-se com a relação entre o que dizia e as verdades da religião, mas pôde prosseguir, pôde escrever livro sobre o seu tema sem ter que dizer qual era a relação com as afirmações religiosas. Os geólogos puderam falar sobre isso cada vez mais. No início do século XIX, se os geólogos falassem sobre a idade da Terra, teriam que explicar se isso era consistente, com a idade da Terra implícita no relato do Génesis. No final do século XIX, podíamos escrever um manual de geologia com argumentos sobre a idade da Terra. Portanto, foi uma grande mudança. Essa divisão intelectual do trabalho ocorre, e de certo modo, solidifica-se, de modo que, no final do século XIX na Europa, há uma real divisão intelectual de trabalho. Podemos fazer todo o tipo de coisas sérias incluindo, de modo crescente, a própria filosofia,sem sermos constrangidos pelo pensamento: "O que eu tenho que dizer tem que ser consistente "com as verdades profundas que me foram dadas "pela nossa tradição religiosa".

Imaginem alguém saído desse mundo, desse mundo do final do século XIX, a chegar ao país em que eu cresci, o Gana, à sociedade em que eu cresci, em Ashanti a chegar a esse mundo no virar do século XX com esta pergunta que eu pus na lista: "O que é que eles têm em vez do cristianismo?"

Bem, há aqui uma coisa em que teriam reparado. A propósito, houve uma pessoa que reparou. Foi o capitão Rattray. Foi um antropólogo do governo britânico, que escreveu um livro sobre a religião ashanti.

Isto é um disco-alma, Há muitos no Museu Britânico. Podia dar-vos uma história interessante, diferente de como há tantas coisas da minha sociedade que acabaram no Museu Britânico... Mas não há tempo para isso. Este objeto é um disco-alma. O que é um disco-alma? Usava-se ao pescoço dos lavadores de almas do rei ashanti. Qual era a sua função? Lavar a alma do rei. Levaria muito tempo para explicar como é que uma alma era uma coisa que podia ser lavada, mas Rattray percebeu que era uma religião porque havia almas em jogo.

E do mesmo modo, havia muitas outras coisas, muitas outras práticas. Por exemplo, sempre que alguém tomava uma bebida, despejava um pouco no chão no que se chamava uma libação. e davam um pouco aos antepassados. O meu pai fazia isso. Quando abria uma garrafa de "whisky", — e fazia-o com frequência — tirava a rolha e despejava um pouquinho no chão, falava com Akroma-Ampim, o fundador da nossa linhagem. ou com Yao Antony, o meu tio-avô, falava com eles, oferecia-lhes um pouco daquilo.

E, por fim, havia enormes cerimoniais públicos. Isto é um desenho do início do séc. XIX de um oficial militar britânico de um cerimonial desses, em que o rei estava envolvido. A função do rei, uma parte principal da sua função, para além de organizar a guerra e coisas dessas, era tomar conta dos túmulos dos seus antepassados. Quando morria um rei bom, o banco onde ele se sentava era enegrecido e colocado no templo real ancestral e, todos os 40 dias, o rei de Ashanti tinha que lá ir e prestar culto aos seus antepassados. Era parte importante do seu cargo. Acreditava-se que se ele não fizesse isso,as coisas desmoronar-se-iam. Portanto, temos aqui uma figura religiosa, — como Rattray teria dito — e também uma figura política.

Tudo isto contou como religião para Rattray. Mas o meu ponto é que, quando olhamos para as vidas dessas pessoas, também percebemos que, sempre que elas fazem qualquer coisa, estão conscientes dos antepassados. Todas as manhãs, ao pequeno-almoço, podemos sair pela porta da rua, fazer uma oferenda ao deus-árvore, o "nyame dua", em frente de casa e, de novo, falar com os deuses, os altos deuses e os baixos deuses, os antepassados, etc. Isto é um mundo em que ainda não se deu a separação entre a religião e a ciência. A religião ainda não foi separada de quaisquer outras áreas da vida e, em especial, o que é fundamental compreender sobre este mundo, é que é um mundo em que a função que a ciência exerce para nós é feita pelo que Rattray vai chamar de religião porque, se querem uma explicação de qualquer coisa, porque é que as colheitas falharam, porque é que está a chover ou não está a chover, se precisam da chuva, se querem saber porque é que o avô morreu, vão apelar a essas mesmas entidades, na mesma linguagem, falar com os mesmos deuses sobre isso. Por outras palavras, esta grande separação entre a religião e a ciência ainda não ocorreu.

Ora bem, isto seria uma curiosidade meramente histórica exceto que, em muitas partes do mundo, isto continua a ser verdade. Tive o privilégio de ir a um casamento outro dia no norte da Namíbia, a 30 km do sul da fronteira com Angola numa aldeia de 200 pessoas. Eram pessoas modernas. Estava lá a Oona Chaplin, de que já devem ter ouvido falar. Uma pessoa da aldeia foi ter com ela e disse: "Vi-a em 'A Guerra dos Tronos'". Portanto, não eram pessoas que estivessem isoladas do nosso mundo mas, apesar disso, para elas, os deuses e os espíritos ainda estão muito presentes. Quando íamos de autocarro para os diversos locais da cerimónia rezavam, não de modo genérico, mas pela segurança da viagem e faziam-no com convicção. Quando me disseram que a minha mãe — a mãe do noivo —estava connosco, não o disseram de modo figurativo. Queriam dizer — apesar de ela já ter morrido —queriam dizer que ela continuava ali. Portanto, em muitos sítios do mundo, hoje em dia, a separação entre a ciência e a religião não ocorreu em muitos sítios do mundo. E, como digo, não são... Este homem trabalhou para o Chase Bank e para o Banco Mundial. (Risos) São cidadãos do mundo tal como nós. mas vêm dum local em que a religião ocupa um papel muito diferente

O que eu queria que vocês pensassem, quando alguém fizer uma grande generalização sobre religião,é que talvez não exista essa coisa de religião, e que, portanto, o que eles dizem, pode não ser verdade.


Translated by Margarida Ferreira
Reviewed by Isabel M. Vaz Belchior

terça-feira, 31 de maio de 2016

Por que a jihad global está perdendo?

Bobby Ghosh: 
Por que a jihad global está perdendo


"Para a grande maioria dos muçulmanos praticantes, jihad é uma luta interna pela fé. É uma luta interior, uma luta contra vício, pecado, tentação, luxúria, ganância. É uma luta para tentar e viver uma vida que seja baseada em códigos morais escritos no Alcorão. Na ideia original, o conceito de jihad é tão importante para muçulmanos como a ideia de graça é para cristãos. É uma palavra muito poderosa, jihad, se você olhar neste aspecto, e existe uma quase mística ressonância nela. E é essa a razão pela qual, por centenas de anos, muçulmanos em toda parte tem chamado seus filhos por Jihad, suas filhas tanto quanto seus filhos, da mesma forma que, digamos, cristãos chamam suas filhas de Graça, e hindus, meu povo, nomeiam suas filhas por Bhakti, que significa, em sânscrito, "culto espiritual".

Porém sempre existiu, no Islã, um pequeno grupo, uma minoria, que acredita que jihad não é apenas uma luta interior, mas também uma luta exterior contra forças que poderiam ameaçar a fé, ou os seguidores dessa fé. E algumas dessas pessoas acreditam que nesta luta, é válido usar armas às vezes. E assim, milhares de rapazes muçulmanos que emigraram para o Afeganistão nos anos 1980 para lutar contra a ocupação soviética de um país muçulmano, em suas cabeças eles estavam lutando uma jihad,eles estavam realizando jihad, e chamaram a si mesmos os "mujahideen", que é uma palavra oriunda da mesma raiz de jihad. E nós esquecemos isso agora, mas naquele tempo os mujahideen eram celebrados neste país, nos Estados Unidos.. Nós pensávamos neles como guerreiros sagrados que estavam lutando a boa guerra contra os comunistas ateus. Os Estados Unidos forneceram armas, dinheiro, apoio, encorajamento.

Mas dentro daquele grupo, uma parte ainda menor, uma minoria dentro de uma minoria dentro de uma minoria, estava emergindo com um novo e perigoso conceito de jihad, e depois esse grupo seria liderado por Osama bin Laden, e ele refinou a ideia. Sua ideia de jihad era de uma guerra global de terror,primariamente dirigida ao longínquo inimigo, ao cruzados do Oeste, contra os Estados Unidos. E as coisas que ele fez para buscar esta jihad foram tão horrendas e mostruosas, e tiveram tão grande impacto, que sua definição foi a que permaneceu, não apenas aqui no mundo ocidental. Não conhecíamos outra forma. Não paramos para perguntar. Apenas assumimos que se este homem insano e seus seguidores psicopatas estavam chamando o que fizeram de "jihad", então isso é o que "jihad" deveria significar. Mas não era apenas nós. Até no mundo muçulmano, sua definição de "jihad" começou a ganhar aceitação.

Um ano atrás eu estava em Tunis e encontrei o sacerdote (imam) de uma pequenina mesquita, um idoso .Quinze anos atrás, ele batizou sua neta "Jihad", seguindo o antigo significado. Ele esperava que um nome assim a inspirasse a viver uma vida espiritual. Mas ele contou-me que após 11 de setembro, ele começou a ter outras reflexões. Ele estava preocupado que se a chamasse pelo nome, especialmente ao ar livre, fora de casa em público, poderia ser visto como apoiador à ideia de "jihad" de Bin Laden. Às sextas em sua mesquita, ele dava sermões tentando resgatar o significado da palavra, mas seus fiéis, as pessoas que vieram à sua mesquita, eles têm visto os vídeos. Eles têm visto imagens de aviões batendo em torres, as torres caindo. Eles ouviram Bin Laden dizer que isso era "jihad", e reivindicando vitória por isso. E então o velho sacerdote preocupou-se que suas palavras não estão sendo ouvidas. Ninguém estava prestando atenção.

Ele estava errado. Algumas pessoas estavam atentas, mas por motivos errados. Os Estados Unidos, nesse ponto, estavam pressionando todos seus aliados árabes, incluindo a Tunísia, para acabar com o extremismo em suas sociedades, e esse sacerdote se encontrou repentinamente na mira do serviço de inteligência tunisiano. Eles nunca tinham prestado atenção antes ao idoso da pequena mesquita - mas agora eles começaram a prestar atenção, e às vezes arrastá-lo para questionamentos, e sempre com a mesma pergunta: "Por que você batizou sua neta de 'Jihad'? Por que continua usando a palavra "jihad" nos sermões de sexta-feira? Você odeia os norte-americanos? Qual é sua conexão com Osama Bin Laden?"
Então para a agência de inteligência tunisiana, e organizações similares em todo o mundo árabe, "jihad" é igual a extremismo, A definição de Bin Laden se institucionalizou. Este foi o poder da palavra que ele foi capaz de fazer. E isso encheu o idoso, encheu-o com grande tristeza. Ele me contou que, de todos os crimes de Bin Laden, este era, a seu ver, um que não teve atenção suficiente, que ele roubou essa palavra, essa ideia linda. Ele não apenas apropriou-se dela, mas a sequestrou e a rebaixou e corrompeu e transformou-a em algo que ela jamais foi, e então convenceu todos nós que sempre foi uma jihad global.

Mas a boa notícia é que a jihad global está quase acabada, como Bin Laden a definiu. Esta morrendo bem antes dele próprio, e agora está em seus últimos passos. Pesquisas de opinião em todo o mundo árabe mostram que há muito pouco interesse entre muçulmanos numa guerra santa global contra o mundo ocidental, contra o distante inimigo. O apoio de jovens desejosos de lutar e morrer pela causa está diminuindo. O suprimento de dinheiro -- tão importante, ou talvez mais importante -- o suprimento de dinheiro para esta atividade está diminuindo. Os fanáticos ricos que estavam antes financiando esse tipo de atividade estão agora menos generosos.

O que isso significa para nós no mundo ocidental? Significa que podemos abrir nossas champagnes, lavar as mãos, despreocupar, dormir bem? Não. Despreocupar não é uma opção, porque se deixar a jihad local sobreviver, ela se torna jihad internacional.

 Hoje há muitas e diferentes jihads violentas em todo o mundo. Na Somália, em Mali, na Nigéria, no Iraque, no Afeganistão, Paquistão, há grupos que reivindicam serem os herdeiros do legado de Osama Bin Laden. Eles usam seu discurso. Eles até usam o nome da marca que ele criou para sua jihad. Então existe agora umaAal Qaeda no Maghreb islâmico,existe uma Al Qaeda na Península Árabe, existe uma Al Qaeda na Mesopotâmia. Há outros grupos -- na Nigéria, Boko Haram, na Somália, Al Shabaab -- e todos eles prestam homenagem a Osama Bin Laden. Mas se você olhar de perto, eles não lutam uma jihad global. Eles estão lutando batalhas em questões muito menores. Geralmente, tem a ver com etnia ou raça ou sectarismo, ou é uma luta por poder. Na maioria das vezes, é uma luta por poder em uma país ou mesmo uma pequena região dentro de um país.Ocasionalmente, eles atravessam fronteiras, do Iraque para Síria, de Mali para Argélia, da Somália para Quênia, mas eles não lutam uma jihad global contra algum inimigo distante.

Mas isso não significa que podemos relaxar. Estava no Iêmen recentemente, onde é a casa da última franquia Al Qaeda que ainda aspira atacar os Estados Unidos, atacar o mundo ocidental. É a velha escola da Al Qaeda. Você deve lembrar desses caras. Eles são os que tentaram enviar um homem-bomba para cá, e eles estavam usando a Internet para tentar e instigar a violência entre muçulmanos americanos. Mas eles foram confundidos recentemente. Ano passado, eles tomaram o controle de uma porção sulina do Iêmen, e a administraram ao estilo do Taliban. E então os militares do Iêmen se recompuseram, e pessoas comuns se levantaram contra esses caras e os expulsaram, e desde então a maioria de suas atividades, a maioria de seus ataques estão sendo dirigidos ao povo do Iêmen.

Então eu penso que chegamos ao ponto agora onde podemos dizer que, assim como toda política, toda jihad é local. Mas que ainda não é razão para nos despreocuparmos, porque já vimos esse filme antes no Afeganistão. Quando aqueles mujahideen derrotaram a União Soviética, nós nos despreocupamos. E mesmo antes de terminar o barulho de abrir a champagne, o Talibã havia tomado Kabul, e dissemos, "Jihad local, não é nosso problema." E então o Talibã deu as chaves de Kandabar para Osama bin Laden. Ele tornou isso nosso problema. Jihad local, se você a ignora, torna-se jihad global novamente.

A boa notícia é que isso não precisa que acontecer. Sabemos como combatê-la agora. Temos as ferramentas. Temos o conhecimento e podemos pegar as lições que aprendemos da luta contra a jihad global, da vitória contra a jihad global, e aplicá-las à jihad local.
Quais são essas lições? Sabemos quem matou bin Laden: Equipe 6 da SEAL (equipe de operações especial da marinha dos EUA) Nós sabemos, compreendemos quem matou o bin Ladenismo? Quem pôs fim à jihad global? Aí estão as respostas para resolver a jihad local.

Quem matou o bin Ladenismo? Começou pelo próprio bin Laden. Ele provavelmente pensou que o 11 de setembro fora uma grande conquista. Na verdade, foi o começo de seu fim. Ele matou 3 mil pessoas inocentes e isso encheu o mundo muçulmano de horror e repulsa, e isso significou que sua ideia de jihadjamais poderia ser a corrente principal. Ele se condenou a operar na marginalidade de sua própria comunidade. 11 de setembro não lhe deu poder, mas o amaldiçoou.

Quem matou o bin Ladenismo? Abu Musab al-Zarqawi o matou. Ele era o sádico chefe da al Qaeda no Iraque que enviou centenas de homens-bomba suicidas atacar não os americanos, mas os iraquianos. Muçulmanos, sunitas e também xiitas. Qualquer reivindicação de que al Qaeda estivesse protegendo o Islam dos cruzados ocidentais afundou no sangue dos muçulmanos iraquianos.

Quem matou Osama Bin Laden? A equipe 6 da SEAL. Quem matou Bin Ladenismo? Al Jazeera matou, Al Jazeera e meia dúzia de outras estações (via satélite) de notícias em árabe, porque eles ultrapassaram as velhas e governamentais estações de TV em muitos países que eram projetadas para esconder informação do povo. Al Jazeera trouxe informação para eles, mostrou a eles que o que estava sendo dito e feito em nome de sua religião, expôs a hipocrisia de Osama Bin Laden e Al Qaeda, e permitiu a eles, deram-lhes a informação que permitiu a eles tirarem suas próprias conclusões.
Quem matou o bin Ladenismo? A Primavera Árabe matou, porque mostrou um caminho para os jovens muçulmanos de trazer mudança numa maneira que Osama Bin Laden, com sua imaginação limitada, jamais poderia conceber.

Quem derrotou a jihad global? As forças militares norte-americanas derrotaram, os soldados americanos, seus aliados, lutando em campos de batalha distantes. E talvez, chegará a hora em que eles terão o justo crédito por isso.

Então todos esses fatores, e muitos outros, que alguns deles sequer compreendemos completamente,se juntaram para derrotar uma monstruosidade tão grande quanto o bin Ladenismo, a jihad global, exigiu esse esforço de grupo.

Agora, nem todas essas coisas funcionarão na jihad local. As forças militares norte-americanas não marcharão na Nigéria para pegar grupo Boko Haram, e é improvável que a Equipe 6 da SEAL irá invadiras casas de líderes do Shabaab para pegá-los.

Mas muitos desses outros fatores que estavam em jogo são agora mais fortes que antes. Metade do trabalho já foi feito. Não temos que re-inventar a roda. A noção de jihad violenta onde mais muçulmanos são mortos mais que qualquer outro povo já está totalmente desacreditada. Não precisamos voltar nisso. Tv via satélite e Internet estão informando e dando poder a jovens muçulmanos de forma nova e estimuladora. E a Primavera Árabe produziu governos, muitos deles governos islâmicos, que sabem que, para sua própria continuidade, precisam pegar os extremistas em seu meio. Não precisamos os persuadir, mas precisamos realmente ajudá-los porque eles não estiveram nessa situação antes.

A boa notícia, novamente, é que muitas coisas que eles precisam nós temos, e somos bons em dar:assistência econômica, não apenas dinheiro, mas perícia, tecnologia, conhecimento prático,investimento privado, termos justos de comércio, medicina, educação, suporte técnico para treinamentopara suas forças policiais tornarem-se mais efetivas, para suas forças anti-terroristas tornarem-se mais eficientes. Nós temos muitas dessas coisas.

Algumas das outras coisas de que precisam não somos muito bons em dar. Talvez ninguém seja.Tempo, paciência, sutileza, compreensão -- essas são difíceis de dar. Eu moro em Nova York agora. Nesta semana, posters foram fixados nas estações de metrô de Nova York descrevendo jihad como selvagem.

Mas em todos os muitos anos que cobri o Oriente Médio, nunca fui tão otimista como sou hoje que a diferença entre o mundo muçulmano e o ocidente está diminuindo rapidamente, e uma das muitas razões para meu otimismo é porque sei que existem milhões, centenas de milhões de pessoas, muçulmanos como o velho sacerdote em Tunis, que estão recuperando essa palavra e restaurando seu belo propósito original. Bin Laden está morto. Bin Ladenismo foi derrotado. Sua definição de jihad pode ser apagada agora. Para essa jihad, podemos dizer "Adeus. Boa viagem." Para a verdadeira jihad, podemos dizer "Bem-vinda de volta. Boa sorte." 

Obrigado. 


Translated by Weber Martins  
Reviewed by Rafael Porteza