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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

CONHECE-TE A TI MESMO

Perguntas que caraterizam a existência humana. 


“Um simples olhar atento na história antiga nos mostra com clareza como, em diferentes partes da terra, marcadas por culturas diferentes, brotam ao mesmo tempo as perguntas de fundo que caracterizam o percurso da existência humana: Quem sou? De onde eu venho e para onde eu vou? Por que o mal existe? O que existe depois da vida? Encontramos essas mesmas perguntas nos escritos Sagrados de Israel, mas elas aparecem também nos Vedas e no Avesta; nós encontramos nos escritos de Confúcio e Lao-Tsé e na pregação das Tirthankara e de Buda; Além disso, encontra-se nos poemas de Homero e nas tragédias de Eurípedes e Sófocles, assim como nos tratados filosóficos de Platão e Aristóteles. São perguntas que tem uma origem comum na necessidade de sentido que desde sempre inquieta o coração do homem: da resposta que se dê a tais perguntas, de fato, depende da orientação que se dá à existência.” (Fides et Ratio 1).

sábado, 19 de novembro de 2016

LIBERDADE RELIGIOSA: RELATÓRIO DE PERSEGUIÇÃO E INTOLERÂNCIA RELIGIOSA


As ilhas de Cabo Verde, antigo território português, têm uma das mais elevadas porcentagens de católicos de qualquer país da África.[1] Os grupos evangélicos protestantes e pentecostais em particular estão ganhando fiéis. A elevada emigração na segunda metade do século XX significa que o número de expatriados de Cabo Verde representa agora quase o dobro dos que ainda vivem nas ilhas.[2]

DISPOSIÇÕES LEGAIS EM RELAÇÃO À LIBERDADE RELIGIOSA E APLICAÇÃO EFETIVA

A Constituição e as leis de Cabo Verde garantem a liberdade religiosa e o direito a expressar a sua religião.[3] Em 16 de maio de 2014 foi aprovada uma nova lei da religião, que estabeleceu os direitos constitucionais à liberdade religiosa, incluindo o direito a prestar culto e a organizar educação religiosa para as crianças. Esta lei também determina a separação entre a Igreja e o Estado. Nos termos da lei, cada cidadão é livre de escolher ou de mudar a sua religião. Não existe religião estatal, mas sim uma separação estrita na lei entre o Estado e a religião.[4]

 Em relação à propagação de uma interpretação fundamentalista jihadista do Islã na África Ocidental, ainda não se sabe se as tendências violentas das redes islâmicas nos países vizinhos vão se alargar a Cabo Verde.

 Todas as organizações, sejam elas religiosas ou seculares, são obrigadas a registrar-se junto do Ministério da Justiça e não podem defender a violência, a ilegalidade, o racismo e a ditadura. Não há restrições para os que não se registram, mas há vantagens para os que estão registrados. A princípio, nenhuma religião goza de direitos especiais. No entanto, uma vez que a Igreja Católica é de longe a comunidade religiosa mais forte no país, esta desempenha um papel especial.[5] 

Em 2013, foi assinada uma concordata entre Cabo Verde e a Santa Sé que clarifica e reconhece o estatuto jurídico da Igreja Católica, incluindo o direito a exercer livremente a sua missão apostólica.[6] A concordata reconhece os casamentos católicos perante a lei civil e a Igreja Católica, por sua vez, reconhece os casamentos civis contraídos em conformidade com o seu próprio direito canônico.

INCIDENTES

Não houve alterações dignas de referência à liberdade religiosa durante o período deste relatório. A relação entre as várias religiões está basicamente livre de tensões. Houve grande regozijo entre muitos católicos no início de 2015 quando o Bispo Arlindo Gomes Furtado de Santiago de Cabo Verde se tornou cardeal. Tinha sido nomeado Bispo de Mindelo em 2004, antes de, em 2009, se tornar Bispo de Santiago, a principal ilha de Cabo Verde, que inclui a capital, a cidade da Praia.

PERSPECTIVAS PARA A LIBERDADE RELIGIOSA

O Cristianismo está firmemente enraizado na cultura de Cabo Verde. Não há razão para assumir que esta situação vai se alterar profundamente. Mesmo assim, toda a região da África Ocidental está passando por mudanças profundas e é impossível descartar o influxo do jihadismo islâmico.

Referência
Relatório 2016: Liberdade Religiosa no mundo. Disponível no link < http://acn.org.br/images/stories/RLRM2016/pDFs/RLRM-2016-CaboVerde.pdf> acesso em 19/11/2012.




[1] ] http://de.radiovaticana.va/news/2015/01/04/kna_die_20_neuen_ kardin%C3%A4le_im_kurz¬portrait/1116943
[2] Arquivo Munzinger 2016
[3] Departamento de Estado Norte-Americano 2016: International Religious Freedom Report for 2014
[4] ibid.
[5] ibid.
[6] ibid.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

CAMINHOS PARA A PROMOÇÃO DA TOLERÂNCIA RELIGIOSA



A ideia da tolerância religiosa está enraizada no pensamento liberal do século XVII. Ela obedecia a uma inspiração racionalista associada a um fator que não pode ser subestimado na promoção da paz entre os diferentes credos: as necessidades econômicas do capitalismo mercantil. As razões de comércio encontraram nas diferenças religiosas um obstáculo ao seu pleno desenvolvimento: 

[...] A Inglaterra gastou a primeira metade do século XVII em enérgica oposição à política antiespanhola do governo (inglês). Na restauração de 1660 foi grandemente assegurado que o comércio não conhecia barreiras religiosas; o importante corolário que se seguiu a isto foi que a abolição e barreiras religiosas promoveriam o comércio. Em 1668 Sir Anthony Ashley Cooper apresentou um memorial a Charles II no qual usa o comércio para reforçar seu apelo de maior liberdade para com os dissidentes religiosos.

Apesar da ideia ter nascido no século XVII, atualmente, em pleno século XXI, época em que se caminha para a consolidação de todos os direitos civis, políticos, sociais e humanos, ainda são visíveis traços de intolerância – principalmente a "intolerância religiosa" na qual se tem expressado de modo tão acentuado que levou a ONU a eleger o ano de 1995 como o ano da prática da tolerância. No entanto continuamos imersos em ondas crescentes de violência. Desta forma, a tolerância como proclama a Declaração da ONU, não é somente um princípio ou um valor relevante, mas igualmente uma condição necessária para a paz e para o desenvolvimento econômico e social de todos os povos. É, ao mesmo tempo, um dever de ordem ética e uma necessidade política e jurídica (Artigo 1º). Com tolerância o futuro pode ser aguardado com esperança.

Porém, o termo tolerância carece de purificação semântica, por causa do uso da linguagem popular. Tolerância não significa, o simples aceitar o diferente ou suportar passivamente o outro. Antes implica reconhecer o verdadeiro direito de o outro expressar-se livremente. No dicionário de filosofia de Nicola Abbagnano, e no dicionário Aurélio de Língua Portuguesa, encontramos as seguintes definições para tolerância:

Norma ou principio de liberdade religiosa [...] na linguagem comum e às vezes filosófica a tolerância é entendida em sentido mais amplo, abrangendo qualquer forma de liberdade, seja ela moral, política ou social. Assim entendida, identifica-se com o pluralismo de valores, de grupos e de interesses na sociedade contemporânea [...]  

Tendência para admitir modos de pensar, de agir e de sentir que diferem dos de um individuo ou de grupos determinados, políticos ou religiosos; diferença máxima admitida entre um valor especificado e o obtido; margem especificada como admissível para o erro em uma medida ou para discrepância em relação a um padrão.   

Quando se fala em tolerância religiosa, é preciso lembrar que, ela faz parte dos direitos fundamentais de qualquer cidadão, presente na Constituição Brasileira, no Art. 5º, inciso VI:

É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias, e a aceitação dos diferentes tipos de religião existente no mundo e na sociedade.

Para que tal liberdade possa ser exercida não deve haver obstáculos, dado que a verdade não se impõe de outro modo se não pela força dessa mesma verdade. A dignidade da pessoa humana exige que todos gozem de imunidade de toda a coação e atos de intolerância religiosa. A sociedade, o Estado, as instituições religiosas, não devem forçar as pessoas a agir contra a sua consciência e a sua filiação religiosa, nem impedi-las do proceder de acordo com ela. A liberdade religiosa, porém, não é uma licença moral para aderir ao erro, nem um implícito direito ao erro.

Para podermos distinguir entre o aceitável e o não aceitável em termos de religião, precisamos conhecer sua origem, seus dogmas e suas práticas. Quem só conhece e estuda uma religião, não pode emitir juízos de valor relativamente às demais. Antes de julgar é preciso conhecer para aprender a respeitar o diferente.  A intolerância religiosa, baseia-se na crença de que uma religião é superior às demais ou a única detentora da verdade absoluta. Por isso, mais do que a liberdade religiosa, precisamos falar da tolerância religiosa, não para legitimar todas as religiões e práticas, mas para aceitar que cada pessoa as julgue por si próprio.

Nesse aspecto a tolerância religiosa envolve os seguintes aspetos: a) reconhecer o direito de julgamento privado em assuntos religiosos; b) reconhecer o direito e a liberdade quanto às convicções, opiniões, formas de adoração, práticas e ações relacionadas às religiões; c) aceitar que seguidores de várias religiões considerem suas convicções como verdadeiros; permitir as pessoas mudar de religião livremente; d) recusar a descriminação em emprego ou acomodação a pessoas de outras religiões, até mesmo as minoritárias; e) acomodar as necessidades religiosas de outras pessoas, por exemplo, respeitando o calendário religioso e as suas dietas específicas [...]

Um dos caminhos para a consolidação da tolerância religiosa no mundo inteiro é reconhecer que as sociedades desde sempre, cultivaram diversas religiões, acreditaram em vários deuses e deusas, apelaram a entidades e seres que transcendem nosso imaginário e preenchem nossa necessidade de conciliar nossa imanência com a nossa tendência ou sede de transcendência, em territórios e épocas diferentes. Um dos caminhos, não que seja o melhor, é o estudo da história das religiões e os principais pensadores que sistematizaram as várias teorias em obras reconhecidas ao longo dos séculos.

A tese dominante no século XVIII é que a humanidade primeiro teria sido monoteísta, e depois, devido a uma decadência original, teria dedicado ao culto dos animais, às forças naturais, aos ídolos e às múltiplas divindades. No século XIX Benjamim Constant dividiu a história da humanidade em três idades: a) Fetichismo: culto de objetos que se supõe representarem entidades espirituais e possuírem poderes de magia; b) Politeísmo: sistema ou crença religiosa que admite mais de um Deus; c) Teísmo: conceito filosófico-religioso desenvolvido para se compreender o Criador. Esta filosofia defende que este Ser é a única entidade responsável pela criação do Universo; é onipotente, capaz de realizar tudo sem a ajuda de ninguém; onisciente, ou seja, Aquele que tudo conhece; detém infinita liberdade e suprema generosidade.

Na mesma linha, Auguste Comte distingue três estados da história humana: a) o estado teológico; b) o estado metafísico; c) e, o estado cientifico. Para Edward Tylor (século. XIX) a primeira forma de religião era o animismo e a teoria da evolução parte daí para o fetichismo, o naturalismo, o politeísmo e por fim o monoteísmo. James Frazer (século. XX) resume as ideias de Tylor em três estados: o animalismo, o politeísmo e o monoteísmo. Em um único empreendimento sociológico de teorização da história das etapas da história religiosa, Robert Bellah distingue cinco tipos de religião: a) a “religião primitiva”; b) a “religião arcaica”; c) a “religião histórica”; d) a “religião primoderna; e) a “religião moderna”. 

Atualmente a convivência com a diversidade religiosa ou como o pluralismo religioso crescente é cada vez mais acentuado, tendo em conta que as sociedades ficaram mais dinâmicas e dialéticas. Nesse sentido, o pluralismo religioso pode ser considerado uma consequência da democratização das sociedades, que considera todos os sujeitos religiosos como legítimos. Sociedades democráticas reconhecem o direito à diferença dos indivíduos e grupos sociais. Nestas sociedades os grupos religiosos são chamados ao reconhecimento e à convivência entre as diferentes denominações. Para estes grupos, o diálogo inter-religioso surge como uma necessidade e um desafio.

Por outro lado há que reconhecer que a despeito dessa dinâmica e desse crescimento e desse pluralismo religioso, outro fator de distanciamento, de obscurantismo e de intolerância que cresceu e continua crescendo a uma velocidade incontrolável. Esse obstáculo à convivência inter-religiosa, à tolerância, ao diálogo inter-religioso é conhecido como o fundamentalismo religioso, que pode ser pode ser definido como:

Um fenômeno caracterizado pela cultura e que pode nominalmente ser influenciada pela religião dos partidários. O termo pode também se referir especificamente à convicção de que algum texto ou preceito religioso considerado infalível, ainda que contrários ao entendimento de estudiosos modernos. Grupos fundamentalistas religiosos frequentemente rejeitam o termo por causa das suas conotações negativas ou porque insinua semelhança entre eles e outros grupos cujos procedimentos acham censuráveis.

O fundamentalismo religioso está presente em todas as religiões, durante todas as épocas da história da humanidade. Os fundamentalistas são os mais conservadores e literais seguidores de uma religião. Mas, nada tem a ver com o monoteísmo (culto ou adoração de um único Deus). O fundamentalismo é a transformação da religião em ideologia. Há pessoas que afirmam ser fundamentalistas “sou fundamentalista porque respeito os fundamentos”. Mas é preciso não vulgarizar o significado dos conceitos, uma vez quem atualmente, o fundamentalista religioso não é aquele que se limita a respeitar os fundamentos. Segundo Nicola Abbagnano, o fundamentalismo:

Historicamente é um movimento que se desenvolveu no seio do protestantismo norte-americano; mas em geral é um posicionamento religioso que se caracteriza pela referência intransigente aos fundamentos da confissão professada, comporta uma interpretação literária dos textos sagrados, a recusa global à inovação e a ênfase no sentimento de pertencer a um grupo religioso a que se adere. O fundamentalismo apareceu ligado às religiões abraâmicas (hebraísmo, cristianismo, e islamismo), baseadas na revelação escrita (Bíblia, Evangelho, Alcorão) [...].   

Os fundamentalistas religiosos consideram que a origem de todos os males está no abandono da observância dos preceitos ditas “originais ou autênticas”. Por isso, pregam a necessidade de voltar à observância rígida dos preceitos, subordinada a uma leitura literal dos mandamentos e o cumprimento inescrupuloso dos dogmas e das normas. Com isso, os fundamentalistas pretendem estabelecer o que é “falso” e “verdadeiro”. Por outro lado, o fundamentalismo religioso, recusa o espaço cultural autônomo, recusa a validade da experiência humana, histórica, social, cívica, artística, científica, tecnológica independente da religião. Consideram iluminados pela luz divina e investidos em uma missão transcendente e, portanto, acham no direito de recorrer a todos os meios, inclusive a violência, para impor a lei que eles consideram de Deus sobre a terra. E, finalmente, é preciso esclarecer que o fundamentalismo religioso não provém das camadas mais atrasadas da sociedade nem de países subdesenvolvidos. São geralmente grupos urbanos, na maior parte são pessoas altamente instruídas, dominam o uso de tecnologias e usam-nas para a manipulação e intimidação das massas.       
  
A pluralidade religiosa desperta na população o anseio por garantias, normas de condutas inequívocas e limites claros, o que por seu lado fomenta o fundamentalismo religioso e cultural. Este será um grande desafio para o diálogo no futuro. Diálogo inter-religioso é a ideia de que as diferentes religiões do mundo devem evitar a busca pela supremacia mundial e, ao invés disso, devem dialogar e se respeitar mutuamente, procurando evitar as guerras com motivação religiosa.

Em 2003, um Encontro Internacional reuniu 35 especialistas em religião provindos da Ásia, Europa e Estados Unidos. Os participantes estabeleceram os princípios para o diálogo inter-religioso. De entre os oito princípios, destacamos três: a) a diálogo e o compromisso inter-religioso devem ser a forma pela qual as religiões se relacionam entre si; b) o diálogo deve envolver os problemas do mundo atual, incluindo a guerra, a violência, a pobreza, a devastação ambiental, a injustiça de gênero e a violação dos direitos humanos; c) as religiões do mundo compartilham muitos valores essenciais, como o amor, a compaixão, a igualdade, a honestidade e o ideal de tratar os outros como queremos ser tratados.

Apesar desses princípios universais que pregam a tolerância religiosa, no dia-a-dia, a melhor forma de exercitar a tolerância é abrir espaço para a liberdade de crença e deixar cada um viver sua fé sem impedimentos, sem pré-julgamentos, sem ostracismo, sem perseguição, mas, respeitando sempre o diferente, afinal, tudo começa com o respeito, e, a tolerância é o mote, pela qual devemos pautar nossas ações. Para isso precisamos conhecer e refletir sobre os “dez mandamentos” do diálogo e da boa convivência religiosa: a) trate os outros como você quer ser tratado, b) respeite a crença religiosa dos outros; c) não brinque nem desrespeite as práticas religiosas dos outros; d) cuidado com a forma como você se aproxima de símbolos e rituais de outras religiões; e) não deixe diferenças religiosas afastarem você da sua família e amigos; f) acompanhe, monitore o ensino religioso ministrado no colégio onde seu filho estuda; g) evite enviar e repassar correntes religiosas por e-mail e redes sociais; j) evite discutir religião com pessoas “recém-convertidas” a uma nova religião; h) evite convencer outras pessoas da plausibilidade ou da veracidade de sua própria crença o religião em detrimento de outras crenças ou religiões.

Por último é preciso relembrar que a Lei 9.459, de 1997, considera crime a prática de discriminação ou preconceito contra religiões. Ninguém pode ser discriminado em razão de credo religioso. O crime de discriminação religiosa é inafiançável (o acusado não pode pagar fiança para responder em liberdade) e imprescritível (o acusado pode ser punido a qualquer tempo).  

Referencias
ABBANANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Martins Fontes, São Paulo, 2007.
As Três Religiões do Livro.  Anselmo. Borges, João G. Monteiro (coord.), Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012.
Compêndio da Doutrina social da Igreja. 1ª edição: Principia Editor (publicações universitárias e científicas Lda). São João do Estoril, Cascais, 2005.
LAMBERT Yves. O nascimento das Religiões: da pré-história às religiões universalistas. Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2011.
LIBANEO, J.B. Em busca da lucidez: o fiel da balança. Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2008.
VON, Cristina. Cultura de Paz. – São Paulo, Petrópolis, 2003.
KAMEN, Henry. The rise of toleration. New York/Toronto: McGraw-Hill Book, 1972.




quinta-feira, 27 de outubro de 2016

MISSIONÁRIOS OU CHARLATÕES RELIGIOSOS EM ÁFRICA?


" [...]  Os VERDADEIROS MISSIONÁRIOS ignoram a si mesmos e realizam aquilo para que foram chamados pela força de seu gênio, secundada pelo poder oculto que os inspira e os dirige, sem que o saibam e sem desígnio premeditado [...]" A. Kardec


Em campanhas eleitorais, é normal que os candidatos a uma (re) eleição, recorram a seus feitos, realcem suas maiores virtudes e conquistas, sua filiação religiosa, seus projetos, até mesmo suas "missões", sejam elas religiosas, humanitárias ou educativas, para agregar valores, e, dessa forma vencer uma eleição.

Mas, quando os motivos pelos quais, certas pessoas se tornam MISSIONÁRIOS, são obscuros e duvidosos é preciso estar vigilante. Pois, nem todos cabem dentro da explicação inicialmente apontada por Kardek. Por isso, é preciso questionar: - Quais foram os reais motivos da (suposta) missão evangelizadora? - Em que situações ela foi realizada? - Dessa missão resultou dividendos patrimoniais e financeiros? [...] 

Está claro que, historicamente a África sempre foi o continente onde muitos viram excelentes possibilidades de exploração e enriquecimento desde o século XV. De lá até aqui, pouca coisa mudou! Muitos continuam vendo em África um ninho de ovos dourados. 

Principalmente os 'pseudo-cristãos' falsamente intitulados de MISSIONÁRIOS RELIGIOSOS, cujo objetivo não é evangelizar, mas, utilizar da boa fé, da "ignorância" da vulnerabilidade e da fragilidade de certas pessoas, para mais uma vez, e, utilizando de técnicas e métodos  persuasivos (charlatanismo) para enganar, explorar, extorquir os poucos recursos de pessoas que vivem muitas vezes no limite da pobreza. 

Não que isso seja regra geral! Certamente há MISSIONÁRIOS honestos. Que isso fique claro! 

Mas, sabemos que muitos MISSIONÁRIOS, vão à África à "caça/pesca de almas", porque sabem, e, quando não, são aconselhados/instruídos que,
[...] "quando a gente precisa de dinheiro, a gente pesca o peixe, e o peixe na boca traz a moeda"[...] M.C.
E, reforçando essa ideia da 'pesca de almas' enfatizam [...] 
"é ganhando a alma que se ganha a oferta, ou seja, a moeda" [...]. M.C. 
Quantos em 'nome de Deus', foram 'pescados' porque trouxeram a moeda na boca? E, quantos foram devolvidos ao mar (condenados) porque não trouxeram a moeda? Pode-se concluir que, a condição para uma boa pesca, depende necessariamente do valor da moeda que o 'peixe' traz na 'boca'. Literalmente, seria o valor do CHEQUE.

Mas, pior ainda, é quando certos MISSIONÁRIOS, narram suas dificuldades em VIVER longe da família: 
"meus irmãos, vocês não sabem o que é viver num país, longe da família, longe de todo mundo, numa dificuldade e você passar um CHEQUE sem fundos. Que agonia rapaz" [...]M.C. 
Então, pergunta-se: o MISSIONÁRIO não deveria ser aquele que ignora a si mesmo (família, amigos, carreira...) e responde ao chamado que o inspira a ajudar os outros em troca de nada? Acho que não é esse o caso! O valor do CHEQUE, fala mais alto. Mas, provavelmente, os 'sem fundo' são motivo de agonia. E que AGONIA! Afinal o 'peixe' não trouxe a 'moeda' na 'boca', e, como não houve oferta, a alma se perdeu [...] Eis a face mais cruel do 'pseudo-missionarismo'.

Estejamos todos vigilantes, pois,
[...] "quem se acha do bem, na realidade não é muito confiável [...] Na realidade, quanto mais percebemos longe de Deus, mais perto d´Ele estamos, e, quanto mais achamos do bem e perto de Deus, provavelmente, estamos dominados pela vaidade, pois,toda a virtude é humilde e silenciosa" L.F.P.  

Quem se acha do bem, é na verdade do mal.


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

APROXIMAÇÕES CONCEITUAIS ENTRE CIÊNCIA DA RELIGIÃO E RELIGIOLOGIA



Vários estudiosos tem tentado fazer a aproximação conceitual entre os termos Ciência da Religião e Religiologia, uma vez que, não é difícil verificar interfaces entre esses conceitos que, por natureza, possuem objetos, objetivos, métodos e metodologias comuns no tratamento de informações/ fatos referentes ao estudo e a compreensão da(s) religião (ões) e dos fenômenos religiosos.

      
A Ciência da Religião tem como finalidade desenvolver, no seu conjunto, investigações que se orientam por abordagens de perfil multidisciplinar, interdisciplinar ou transdisciplinar, segundo recortes teórico-metodológicos diversos. Segundo Klauss Hock, “a Ciência da Religião é uma pesquisa empírica, histórica e sistemática da religião e de religiões”. Segundo Aldo Natale Terrim (2003):

O grande pioneiro nesse campo foi M. Muller (1823-1900), que além de realizar estudos comparados de grande valia sobre a mitologia das diversas religiões, começou também a grande tradução para o Inglês de todos os livros sagrados do Oriente na série The Sacred books of the East [Os livros sagrados do Oriente].

Ao investigarmos sobre o tema Religiologia, tivemos como ponto de partida o artigo elaborado por Flávio Senra, cujo título “O teólogo e o cientista da religião. Religiografia acerca das interfaces entre Ciências da Religião ou Religiologia e Teologia no Brasil” publicado em 2016. Segundo ele, Hans-Jurgen Greschat já havia usado o termo Religiologia para nomear a pesquisa do “imediatamente relevante”[1] na pesquisa sobre religião, crença ou expressão religiosa”.[2]

Etimologicamente, podemos comparar a "Religiologia", por exemplo, com a "Psicologia". A Psicologia deriva das palavras gregas "psyché" (alma, espírito) e "logos" (estudo, razão, compreensão); já a "Religiologia" deriva de "religio" palavra de origem latina que segundo Klauss Hock (2010), descreve a atuação como consideração ou a “observância”; e "logia" do grego “logos”, palavra, discurso, linguagem, estudo [...], ou seja, a palavra Religiologia significa: “aprender sobre religião” ou “estudo da religião”[3]

Ao basearmos na origem etimológica dessas duas palavras, podemos concluir corroborando com Hebert D. Liessique (2015) que "Religiologia é um campo separado da ciência, pois estuda a religião e seus fenômenos.” [...] Ou seja, a "Religiologia" faz todo o sentido, como sendo "o estudo da(s) religião (ões) e dos fenômenos religiosos de forma científica".

Segundo Senra (2016) “existem vários estudos casos em que o termo Religiologia aparece”. A título de exemplo, veremos dos casos em que o temo aparece fora do eixo linguístico franco-anglo-saxônico. Um exemplo japonês e um polonês:  

No caso Japonês, a Religiologia é um ramo da ciência e seu objetivo é o estudo científico da religião. Procura obter um conhecimento básico sobre a religião como uma fase da cultura, sem a ideia preconcebida de um sistema de crenças específico. Apenas o estudo científico da religião pode alcançar esse objetivo; no caso polonês, o termo Religiologia é utilizado para caracterizar os estudos da religião, incluídas as disciplinas teologia da religião e filosofia da religião [...]

Já o termo “Religiólogo” segundo Michelie Kassia (2012), “caracterizaria como o profissional capacitado para desenvolver estudos sobre o fenômeno religioso, assim como o sociólogo estuda a sociedade, o biólogo a vida, o psicólogo a psique, e outros".[4] Ou seja, o tarefa do Religiólogo consiste na investigação científica para a análise do fenômeno/fato religioso.

Etimologicamente podemos comparar o "Religiológo" com o "Psicólogo". A segunda deriva do Grego psykhé, “mente”, mais logon, “tratado, estudo”, bem como o nome da matéria, Psicologia. O Psicólogo da religião dedica-se ao estudo da relação entre indivíduo e a religião, enquanto que o Religiólogo seria um profissional que estuda o comportamento, do endivido em relação aos fenômenos e os processos religiosos no seio da sociedade como um todo.

Podemos ver que existe uma correlação direta entre os termos Ciência da Religião e Religiologia, por serem ciências que se dedicam ao estudo da (s) religião (ôes) e dos fenômenos religiosos. Mas, para isso, é preciso que existam profissionais para tal. 

No primeiro caso, o Cientista da Religião, que tem como tarefa investigar, analisar, comparar diferentes religiões tendo sendo como compromisso o principio de não julgamento da suposta qualidade dos fenômenos religiosos investigados. Depreende-se, então, que, a tarefa do Religiólogo não difere do Cientista da religião. Então, podemos concluir que o Cientista da Religião está para a Ciência da Religião, assim como, a Religiólogo, está para a Religiologia.      


Referências:

SENRA Flávio. O teólogo e o cientista da religião. Religiografia acerca das interfaces entre Ciências da Religião ou Religiologia e Teologia no Brasil. Disponível em: < file:///C:/Users/Priscilla/Downloads/Dialnet-OTeologoEOCientistaDaReligiaoReligiografiaAcercaDa-5567869.pdf>. Acesso em 21/10/2016.

Compêndio de Ciência da religião/ João Décio Passos; Frank Usarski (org.). - São Paulo: Paulinas, 2013.
H-J. GRESCHAT, O que é Ciência da Religião. Coleção Repensando a Religião, p. 32 apud SENRA, 2016.

HOCK, Klauss. Introdução á Ciência da Religião. São Paulo – SP: Edições Loyola, 2010.  
KÁSSIA, Michelle. Curso de Ciência das Religiões. UFPB. Disponível em: < http://crufpb.blogspot.com.br/2012_06_01_archive.html>. Acesso em 21/10/ 2016.
  
LIESSI Hebert D. Por que o Ensino Religioso? – parte 1. Disponível em < http://religiaorelevante.blogspot.com.br/2015/08/por-que-o-ensino-religioso-parte-1.html>. Acesso em 21/10/2016.

TERRIM, Aldo Natale. Introdução ao estudo comparado das religiões. – São Paulo: Paulinas, 2003. – (Coleção religião e cultura).      



[1] H-J. GRESCHAT, O que é Ciência da Religião. Coleção Repensando a Religião, p. 32 apud SENRA, 2016.
[2] SENRA Flávio. O teólogo e o cientista da religião. Religiografia acerca das interfaces entre Ciências da Religião ou Religiologia e Teologia no Brasil. Disponível em: < file:///C:/Users/Priscilla/Downloads/Dialnet-OTeologoEOCientistaDaReligiaoReligiografiaAcercaDa-5567869.pdf>. Acesso em 21/10/2016.  
[3] LIESSE Herbert D. Por que um Ensino Religioso? Disponível em <http://religiaorelevante.blogspot.com.br/2015/08/por-que-o-ensino-religioso-parte-1.html>. Acesso em 21/10/2016.
[4] KÁSSIA, Michelle. Curso de Ciência das Religiões. UFPB. Disponível em: < http://crufpb.blogspot.com.br/2012_06_01_archive.html>. Acesso em 21/10/ 2016.  

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

CIÊNCIA RELIGIÃO APLICADA


De acordo com Udo Tworuschka, em seu artigo “Ciência Prática da Religião: considerações teóricas e metodológicas”, o termo Ciência da Religião Prática é relativamente novo. Alguns falam de “Ciência da Religião Engajada ou Aplicada". Em 1959 o judeu R. J. Werbolowski usou o termo “Estudos Religiosos Aplicados”. 

Para evitar possíveis equívocos, esclarecemos que os termos "Ciência da Religião Prática", "Ciência da Religião Engajada" ou "Ciência da Religião Aplicada" significam a mesma coisa. A nomenculatura muda, mas, os objetivos a serem atingidos e o métodos usados são os mesmos.  


Friedrich Max Muller (1823-1900), pai fundador da Ciência da Religião, expressou a visão tradicional:

Na vida prática seria errado adotar uma posição neutra entre pontos de vista conflitantes examinados [...]; nós devemos tomar uma posição. Mas como estudantes de Ciência da Religião, nos movemos em uma atmosfera elevada e mais serena. Estudamos o erro, como o fisiologista estuda uma doença, procurando por suas causas, rastreando sua influência, especulando sobre possíveis remédios [...]

A ciência pura e aplicada é uma distinção de ciência do Iluminismo e remonta ao químico e mineralogista sueco Johan Gottschalk Wallerius (1709-1785). Nesse aspecto, a distinção entre ciência pura e aplicada é crucial, para que possamos entender o alcance e os limites epistemológicos de cada um.

Entende-se por Ciência Pura, qualquer atividade em que o cientista é livre para seguir seus impulsos e intuições individuais em sua busca pelo conhecimento. Esse impulso do interior é controlado apenas pela consciência intelectual do pesquisador. O único contexto limitante externo controlando o progresso da pura descoberta científica é a própria natureza.

Já a Ciência Aplicada visa a aplicação do conhecimento para a solução de problemas práticos. Elas são importantes para o desenvolvimento tecnológico e identificam-se de maneira forte com o que se denomina tecnologia. Seu uso no cenário religioso (Ciência da Religião) é fundamental, pois, atua na resolução de diversos problemas concretas do homem.  

Daí conclui-se que, em Ciência Pura o objetivo é o “conhecimento” em si, o “conhecer por conhecer”, enquanto que, a Ciência Aplicada, tem sempre um fim desejado, cuja realização bem sucedida, subordina, em última instância, todo o resto, ou seja, as ciências aplicadas estudam as formas de aplicar o conhecimento humano, oriunda da ciência pura, para o benefício do próprio homem.

Assim, na Introdução do Compendio de Ciência da Religião (Parte V: Ciência da Religião Aplicada), Afonso Maria Ligorio Soares, cita UdoTworuschka, que afirma que no caso da Ciência da Religião, sua aplicação prática:

Vai além da percepção, descrição, e análise das ações dos autores. Ela se interessa pelas reais possibilidades de contribuir socialmente em vista da paz, da humanização e da mediação de conflitos culturais-religiosos, o que implica desistir de uma disposição catedrática de transferência “neutra” de conhecimento de cima para baixo, para investir fundo na vida cotidiana e seus problemas. (SOARES, 2013, p. 573).    

Nota-se que a Ciência da Religião Aplicada posicionou-se em alternativa ao paradigma da Ciência da Religião dos anos 1970, reduzida à pura Fenomenologia da Religião[1]. Atualmente ela é uma disciplina científica-cultural autônoma, que não está interessado se há uma verdade transcendental, mas sim, uma disciplina preocupada com a resolução de questões concretas do homem e da sociedade como um todo.

A Ciência da Religião Aplicada tem uma abordagem indutiva e usa métodos empíricos de pesquisa e usa como ciências auxiliares várias ciências humanas, o que lhe confere uma amplitude ainda maior. Essas ciências auxiliares analisam e apresentam as religiões sob aspetos específicos.

Entre elas destacamos algumas:

A Sociologia da Religião que se dedica ao estudo de questões entre a religião e a sociedade (religião e forma de organização social, religião e política, religião e camadas sociais ou religião e família);

A Etnologia da Religião que se dedica a pesquisa de religiões em sociedades do passado e menos complexas (análise de mitos e de formas de rituais);  

A Psicologia da Religião que se dedica ao estudo das relações entre o indivíduo e a religião, especialmente no plano da experiência individual das pessoas;

A Geografia da Religião que trata dos impactos mútuos entre religião e ambiente, analisando tanto o impacto da religião sobre o ambiente e vice versa;

A Economia da Religião que interessa por questões da relação entre religião e economia, enfocando tanto as condições econômicas como as consequências econômicas da atuação religiosa; [...]

Nesse aspecto, a Ciência da Religião Aplicada deve prestar conta sobre sua relevância social. Por isso, questiona-se muito sobre sua utilidade. Quanto a isso, nós os cientistas da religião já estamos conscientes dessa importância, mas, nunca é demais esclarecer equívocos históricos em torno da nossa disciplina.

Em primeiro lugar a Ciência da Religião é útil de modo pragmático, pois, ajuda na transmissão de conhecimentos sobre religiões e culturas, tanto no ambiente universitário (local onde ainda decorrem as discussões teóricas) assim como fora das universidades (locais de aplicação prática da Ciência da Religião);

A Ciência da Religião pode cumprir o papel de mediadora de conflitos inter-religiosos usando seus pareceres específicos, visando rejeitar interpretações errôneas, preconceitos, mal-entendidos em relação a outras tradições religiosas;

A Ciência da Religião cria novas possibilidades de reflexão crítica sobre nosso próprio ponto de vista por meio da vinculação do resultado de estudos científico-religiosos com a nossa própria cultura e religião na qual vivemos. O estudo de outras religiões nos impele a refletir sobre a nossa e a sermos mais tolerantes.  
  
Outra questão pertinente para a Ciência da Religião Aplicada tem a ver com o papel do pesquisador (o cientista da religião) no processo de pesquisa científico-religioso. Para responder essa questão devemos levar em conta dois fatores: o fator subjetivo e o objetivo.

O primeiro tem a ver com as condições estruturais para a realização das pesquisas que podem distorcer os resultados, como por exemplo, as características históricas, culturais e científicas de uma determinada época;

Por outro lado temos o posicionamento pessoal do pesquisador, que desempenha um papel importante na pesquisa científico-religiosa, quando, por exemplo, atitudes negativas ou positivas acerca da religião exercem seus efeitos sem que isso seja explicitamente levado em conta durante a pesquisa.

Para evitar que uma pesquisa seja comprometida, o cientista da religião deve estar comprometido com o princípio da abstinência de julgamento (suspensão do juízo, conhecido também como ateísmo metodológico) da suposta qualidade dos fenômenos religiosos investigados.  

Assim, nas suas investigações o cientista da religião:

Deve descobrir o que é religião, qual base ela tem com a alma do homem e quais as leis que seguem no seu percurso histórico;

Deve por entre parêntesis os seus interesses religiosos individuais e “assumir o ponto de vista do observador” norteado pelo objetivo de coletar, ordenar e categorizar fatos observados;

Deve adotar uma postura metodológica, em que tenha distanciamento necessário para analisar os fatos, evitando emitir juízos de valor que possam, comprometer os resultados finais, ou seja, o cientista da religião metodologicamente deve adotar o que se chama de agnosticismo e ateísmo metodológico.  

Sendo assim, no espectro da Ciência da Religião Aplicada, o trabalho do cientista da religião, não se restringe sua atuação ao mero registro e a mera recepção de dados pré-estabelecidos, mas, ao contrário, participar pessoalmente dos processos que conduzem à constituição do objeto da Ciência da Religião.  

A Ciência da Religião como área singular, o teor de sua aplicação pode ser variado, a depender das situações e dos sujeitos que a demandam:

O pedagógico que pretende educar e informar grupos e sujeitos;

O terapêutico que pretende direcionar posturas e comportamentos para metas humanas pré-estabelecidas;

O tecnológico que visa precisamente configurar novas condições históricas e institucionais.

Ainda podemos destacar a Ciência da Religião Aplicada às Relações Internacionais, à Educação Sociopolítica; ao Patrimônio Cultural; à Teologia; à Ação Pastora; à Psicoterapia.

Ao procurar por momentos da Ciência Aplicada da Religião no sec. XX encontramos três acadêmicos importantes: o teólogo  protestante alemão Gustav Mensching (1901-1978), o professor, historiador das religiões Mirceia Eliad (1907-1986) e o professor canadense de religião comparada Wilfred Cantwell Smith (1964-1973). Eles estão entre os mais conhecidos, mas provavelmente não são os únicos nessa disciplina.      

Referências:

CARL, Rogers; [et All]. Em busca de vida: da terapia centrada no cliente à abordagem centrada na pessoa. 2ª edição. Tradução de Afonso Henrique L. da Fonseca. SUMUS EDITORIAL LDA, 1983.   
Compêndio de Ciência da religião/ João Décio Passos; Frank Usarski (org.). - São Paulo: Paulinas, 2013.     
HOCK, Klauss. Introdução á Ciência da Religião. São Paulo – SP: Edições Loyola, 2010.  




[1] De acordo com Klauss Hock, “o objetivo da Fenomenologia da Religião é ordenar sistematicamente os distintos fenômenos religiosos, definir seus conteúdos religiosos e compreender, dessa maneira, a “essência” da religião. Na segunda metade do séc. XX, a Fenomenologia da Religião em sua forma tradicional se tornou alvo de fortes críticas. Por isso, os primeiros novos inícios são tímidos, renunciam deliberadamente a essa “contemplação” da essência e dirigem sua atenção à pergunta pelas suas intenções, com as quais pessoas atribuem aos fenômenos um sentido religioso, isto é, um sentido que é, para elas, obrigatório e inquestionável”. (HOCK, Klaus, 2010, p. 14).