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quinta-feira, 27 de outubro de 2016

MISSIONÁRIOS OU CHARLATÕES RELIGIOSOS EM ÁFRICA?


" [...]  Os VERDADEIROS MISSIONÁRIOS ignoram a si mesmos e realizam aquilo para que foram chamados pela força de seu gênio, secundada pelo poder oculto que os inspira e os dirige, sem que o saibam e sem desígnio premeditado [...]" A. Kardec


Em campanhas eleitorais, é normal que os candidatos a uma (re) eleição, recorram a seus feitos, realcem suas maiores virtudes e conquistas, sua filiação religiosa, seus projetos, até mesmo suas "missões", sejam elas religiosas, humanitárias ou educativas, para agregar valores, e, dessa forma vencer uma eleição.

Mas, quando os motivos pelos quais, certas pessoas se tornam MISSIONÁRIOS, são obscuros e duvidosos é preciso estar vigilante. Pois, nem todos cabem dentro da explicação inicialmente apontada por Kardek. Por isso, é preciso questionar: - Quais foram os reais motivos da (suposta) missão evangelizadora? - Em que situações ela foi realizada? - Dessa missão resultou dividendos patrimoniais e financeiros? [...] 

Está claro que, historicamente a África sempre foi o continente onde muitos viram excelentes possibilidades de exploração e enriquecimento desde o século XV. De lá até aqui, pouca coisa mudou! Muitos continuam vendo em África um ninho de ovos dourados. 

Principalmente os 'pseudo-cristãos' falsamente intitulados de MISSIONÁRIOS RELIGIOSOS, cujo objetivo não é evangelizar, mas, utilizar da boa fé, da "ignorância" da vulnerabilidade e da fragilidade de certas pessoas, para mais uma vez, e, utilizando de técnicas e métodos  persuasivos (charlatanismo) para enganar, explorar, extorquir os poucos recursos de pessoas que vivem muitas vezes no limite da pobreza. 

Não que isso seja regra geral! Certamente há MISSIONÁRIOS honestos. Que isso fique claro! 

Mas, sabemos que muitos MISSIONÁRIOS, vão à África à "caça/pesca de almas", porque sabem, e, quando não, são aconselhados/instruídos que,
[...] "quando a gente precisa de dinheiro, a gente pesca o peixe, e o peixe na boca traz a moeda"[...] M.C.
E, reforçando essa ideia da 'pesca de almas' enfatizam [...] 
"é ganhando a alma que se ganha a oferta, ou seja, a moeda" [...]. M.C. 
Quantos em 'nome de Deus', foram 'pescados' porque trouxeram a moeda na boca? E, quantos foram devolvidos ao mar (condenados) porque não trouxeram a moeda? Pode-se concluir que, a condição para uma boa pesca, depende necessariamente do valor da moeda que o 'peixe' traz na 'boca'. Literalmente, seria o valor do CHEQUE.

Mas, pior ainda, é quando certos MISSIONÁRIOS, narram suas dificuldades em VIVER longe da família: 
"meus irmãos, vocês não sabem o que é viver num país, longe da família, longe de todo mundo, numa dificuldade e você passar um CHEQUE sem fundos. Que agonia rapaz" [...]M.C. 
Então, pergunta-se: o MISSIONÁRIO não deveria ser aquele que ignora a si mesmo (família, amigos, carreira...) e responde ao chamado que o inspira a ajudar os outros em troca de nada? Acho que não é esse o caso! O valor do CHEQUE, fala mais alto. Mas, provavelmente, os 'sem fundo' são motivo de agonia. E que AGONIA! Afinal o 'peixe' não trouxe a 'moeda' na 'boca', e, como não houve oferta, a alma se perdeu [...] Eis a face mais cruel do 'pseudo-missionarismo'.

Estejamos todos vigilantes, pois,
[...] "quem se acha do bem, na realidade não é muito confiável [...] Na realidade, quanto mais percebemos longe de Deus, mais perto d´Ele estamos, e, quanto mais achamos do bem e perto de Deus, provavelmente, estamos dominados pela vaidade, pois,toda a virtude é humilde e silenciosa" L.F.P.  

Quem se acha do bem, é na verdade do mal.


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

APROXIMAÇÕES CONCEITUAIS ENTRE CIÊNCIA DA RELIGIÃO E RELIGIOLOGIA



Vários estudiosos tem tentado fazer a aproximação conceitual entre os termos Ciência da Religião e Religiologia, uma vez que, não é difícil verificar interfaces entre esses conceitos que, por natureza, possuem objetos, objetivos, métodos e metodologias comuns no tratamento de informações/ fatos referentes ao estudo e a compreensão da(s) religião (ões) e dos fenômenos religiosos.

      
A Ciência da Religião tem como finalidade desenvolver, no seu conjunto, investigações que se orientam por abordagens de perfil multidisciplinar, interdisciplinar ou transdisciplinar, segundo recortes teórico-metodológicos diversos. Segundo Klauss Hock, “a Ciência da Religião é uma pesquisa empírica, histórica e sistemática da religião e de religiões”. Segundo Aldo Natale Terrim (2003):

O grande pioneiro nesse campo foi M. Muller (1823-1900), que além de realizar estudos comparados de grande valia sobre a mitologia das diversas religiões, começou também a grande tradução para o Inglês de todos os livros sagrados do Oriente na série The Sacred books of the East [Os livros sagrados do Oriente].

Ao investigarmos sobre o tema Religiologia, tivemos como ponto de partida o artigo elaborado por Flávio Senra, cujo título “O teólogo e o cientista da religião. Religiografia acerca das interfaces entre Ciências da Religião ou Religiologia e Teologia no Brasil” publicado em 2016. Segundo ele, Hans-Jurgen Greschat já havia usado o termo Religiologia para nomear a pesquisa do “imediatamente relevante”[1] na pesquisa sobre religião, crença ou expressão religiosa”.[2]

Etimologicamente, podemos comparar a "Religiologia", por exemplo, com a "Psicologia". A Psicologia deriva das palavras gregas "psyché" (alma, espírito) e "logos" (estudo, razão, compreensão); já a "Religiologia" deriva de "religio" palavra de origem latina que segundo Klauss Hock (2010), descreve a atuação como consideração ou a “observância”; e "logia" do grego “logos”, palavra, discurso, linguagem, estudo [...], ou seja, a palavra Religiologia significa: “aprender sobre religião” ou “estudo da religião”[3]

Ao basearmos na origem etimológica dessas duas palavras, podemos concluir corroborando com Hebert D. Liessique (2015) que "Religiologia é um campo separado da ciência, pois estuda a religião e seus fenômenos.” [...] Ou seja, a "Religiologia" faz todo o sentido, como sendo "o estudo da(s) religião (ões) e dos fenômenos religiosos de forma científica".

Segundo Senra (2016) “existem vários estudos casos em que o termo Religiologia aparece”. A título de exemplo, veremos dos casos em que o temo aparece fora do eixo linguístico franco-anglo-saxônico. Um exemplo japonês e um polonês:  

No caso Japonês, a Religiologia é um ramo da ciência e seu objetivo é o estudo científico da religião. Procura obter um conhecimento básico sobre a religião como uma fase da cultura, sem a ideia preconcebida de um sistema de crenças específico. Apenas o estudo científico da religião pode alcançar esse objetivo; no caso polonês, o termo Religiologia é utilizado para caracterizar os estudos da religião, incluídas as disciplinas teologia da religião e filosofia da religião [...]

Já o termo “Religiólogo” segundo Michelie Kassia (2012), “caracterizaria como o profissional capacitado para desenvolver estudos sobre o fenômeno religioso, assim como o sociólogo estuda a sociedade, o biólogo a vida, o psicólogo a psique, e outros".[4] Ou seja, o tarefa do Religiólogo consiste na investigação científica para a análise do fenômeno/fato religioso.

Etimologicamente podemos comparar o "Religiológo" com o "Psicólogo". A segunda deriva do Grego psykhé, “mente”, mais logon, “tratado, estudo”, bem como o nome da matéria, Psicologia. O Psicólogo da religião dedica-se ao estudo da relação entre indivíduo e a religião, enquanto que o Religiólogo seria um profissional que estuda o comportamento, do endivido em relação aos fenômenos e os processos religiosos no seio da sociedade como um todo.

Podemos ver que existe uma correlação direta entre os termos Ciência da Religião e Religiologia, por serem ciências que se dedicam ao estudo da (s) religião (ôes) e dos fenômenos religiosos. Mas, para isso, é preciso que existam profissionais para tal. 

No primeiro caso, o Cientista da Religião, que tem como tarefa investigar, analisar, comparar diferentes religiões tendo sendo como compromisso o principio de não julgamento da suposta qualidade dos fenômenos religiosos investigados. Depreende-se, então, que, a tarefa do Religiólogo não difere do Cientista da religião. Então, podemos concluir que o Cientista da Religião está para a Ciência da Religião, assim como, a Religiólogo, está para a Religiologia.      


Referências:

SENRA Flávio. O teólogo e o cientista da religião. Religiografia acerca das interfaces entre Ciências da Religião ou Religiologia e Teologia no Brasil. Disponível em: < file:///C:/Users/Priscilla/Downloads/Dialnet-OTeologoEOCientistaDaReligiaoReligiografiaAcercaDa-5567869.pdf>. Acesso em 21/10/2016.

Compêndio de Ciência da religião/ João Décio Passos; Frank Usarski (org.). - São Paulo: Paulinas, 2013.
H-J. GRESCHAT, O que é Ciência da Religião. Coleção Repensando a Religião, p. 32 apud SENRA, 2016.

HOCK, Klauss. Introdução á Ciência da Religião. São Paulo – SP: Edições Loyola, 2010.  
KÁSSIA, Michelle. Curso de Ciência das Religiões. UFPB. Disponível em: < http://crufpb.blogspot.com.br/2012_06_01_archive.html>. Acesso em 21/10/ 2016.
  
LIESSI Hebert D. Por que o Ensino Religioso? – parte 1. Disponível em < http://religiaorelevante.blogspot.com.br/2015/08/por-que-o-ensino-religioso-parte-1.html>. Acesso em 21/10/2016.

TERRIM, Aldo Natale. Introdução ao estudo comparado das religiões. – São Paulo: Paulinas, 2003. – (Coleção religião e cultura).      



[1] H-J. GRESCHAT, O que é Ciência da Religião. Coleção Repensando a Religião, p. 32 apud SENRA, 2016.
[2] SENRA Flávio. O teólogo e o cientista da religião. Religiografia acerca das interfaces entre Ciências da Religião ou Religiologia e Teologia no Brasil. Disponível em: < file:///C:/Users/Priscilla/Downloads/Dialnet-OTeologoEOCientistaDaReligiaoReligiografiaAcercaDa-5567869.pdf>. Acesso em 21/10/2016.  
[3] LIESSE Herbert D. Por que um Ensino Religioso? Disponível em <http://religiaorelevante.blogspot.com.br/2015/08/por-que-o-ensino-religioso-parte-1.html>. Acesso em 21/10/2016.
[4] KÁSSIA, Michelle. Curso de Ciência das Religiões. UFPB. Disponível em: < http://crufpb.blogspot.com.br/2012_06_01_archive.html>. Acesso em 21/10/ 2016.  

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

CIÊNCIA RELIGIÃO APLICADA


De acordo com Udo Tworuschka, em seu artigo “Ciência Prática da Religião: considerações teóricas e metodológicas”, o termo Ciência da Religião Prática é relativamente novo. Alguns falam de “Ciência da Religião Engajada ou Aplicada". Em 1959 o judeu R. J. Werbolowski usou o termo “Estudos Religiosos Aplicados”. 

Para evitar possíveis equívocos, esclarecemos que os termos "Ciência da Religião Prática", "Ciência da Religião Engajada" ou "Ciência da Religião Aplicada" significam a mesma coisa. A nomenculatura muda, mas, os objetivos a serem atingidos e o métodos usados são os mesmos.  


Friedrich Max Muller (1823-1900), pai fundador da Ciência da Religião, expressou a visão tradicional:

Na vida prática seria errado adotar uma posição neutra entre pontos de vista conflitantes examinados [...]; nós devemos tomar uma posição. Mas como estudantes de Ciência da Religião, nos movemos em uma atmosfera elevada e mais serena. Estudamos o erro, como o fisiologista estuda uma doença, procurando por suas causas, rastreando sua influência, especulando sobre possíveis remédios [...]

A ciência pura e aplicada é uma distinção de ciência do Iluminismo e remonta ao químico e mineralogista sueco Johan Gottschalk Wallerius (1709-1785). Nesse aspecto, a distinção entre ciência pura e aplicada é crucial, para que possamos entender o alcance e os limites epistemológicos de cada um.

Entende-se por Ciência Pura, qualquer atividade em que o cientista é livre para seguir seus impulsos e intuições individuais em sua busca pelo conhecimento. Esse impulso do interior é controlado apenas pela consciência intelectual do pesquisador. O único contexto limitante externo controlando o progresso da pura descoberta científica é a própria natureza.

Já a Ciência Aplicada visa a aplicação do conhecimento para a solução de problemas práticos. Elas são importantes para o desenvolvimento tecnológico e identificam-se de maneira forte com o que se denomina tecnologia. Seu uso no cenário religioso (Ciência da Religião) é fundamental, pois, atua na resolução de diversos problemas concretas do homem.  

Daí conclui-se que, em Ciência Pura o objetivo é o “conhecimento” em si, o “conhecer por conhecer”, enquanto que, a Ciência Aplicada, tem sempre um fim desejado, cuja realização bem sucedida, subordina, em última instância, todo o resto, ou seja, as ciências aplicadas estudam as formas de aplicar o conhecimento humano, oriunda da ciência pura, para o benefício do próprio homem.

Assim, na Introdução do Compendio de Ciência da Religião (Parte V: Ciência da Religião Aplicada), Afonso Maria Ligorio Soares, cita UdoTworuschka, que afirma que no caso da Ciência da Religião, sua aplicação prática:

Vai além da percepção, descrição, e análise das ações dos autores. Ela se interessa pelas reais possibilidades de contribuir socialmente em vista da paz, da humanização e da mediação de conflitos culturais-religiosos, o que implica desistir de uma disposição catedrática de transferência “neutra” de conhecimento de cima para baixo, para investir fundo na vida cotidiana e seus problemas. (SOARES, 2013, p. 573).    

Nota-se que a Ciência da Religião Aplicada posicionou-se em alternativa ao paradigma da Ciência da Religião dos anos 1970, reduzida à pura Fenomenologia da Religião[1]. Atualmente ela é uma disciplina científica-cultural autônoma, que não está interessado se há uma verdade transcendental, mas sim, uma disciplina preocupada com a resolução de questões concretas do homem e da sociedade como um todo.

A Ciência da Religião Aplicada tem uma abordagem indutiva e usa métodos empíricos de pesquisa e usa como ciências auxiliares várias ciências humanas, o que lhe confere uma amplitude ainda maior. Essas ciências auxiliares analisam e apresentam as religiões sob aspetos específicos.

Entre elas destacamos algumas:

A Sociologia da Religião que se dedica ao estudo de questões entre a religião e a sociedade (religião e forma de organização social, religião e política, religião e camadas sociais ou religião e família);

A Etnologia da Religião que se dedica a pesquisa de religiões em sociedades do passado e menos complexas (análise de mitos e de formas de rituais);  

A Psicologia da Religião que se dedica ao estudo das relações entre o indivíduo e a religião, especialmente no plano da experiência individual das pessoas;

A Geografia da Religião que trata dos impactos mútuos entre religião e ambiente, analisando tanto o impacto da religião sobre o ambiente e vice versa;

A Economia da Religião que interessa por questões da relação entre religião e economia, enfocando tanto as condições econômicas como as consequências econômicas da atuação religiosa; [...]

Nesse aspecto, a Ciência da Religião Aplicada deve prestar conta sobre sua relevância social. Por isso, questiona-se muito sobre sua utilidade. Quanto a isso, nós os cientistas da religião já estamos conscientes dessa importância, mas, nunca é demais esclarecer equívocos históricos em torno da nossa disciplina.

Em primeiro lugar a Ciência da Religião é útil de modo pragmático, pois, ajuda na transmissão de conhecimentos sobre religiões e culturas, tanto no ambiente universitário (local onde ainda decorrem as discussões teóricas) assim como fora das universidades (locais de aplicação prática da Ciência da Religião);

A Ciência da Religião pode cumprir o papel de mediadora de conflitos inter-religiosos usando seus pareceres específicos, visando rejeitar interpretações errôneas, preconceitos, mal-entendidos em relação a outras tradições religiosas;

A Ciência da Religião cria novas possibilidades de reflexão crítica sobre nosso próprio ponto de vista por meio da vinculação do resultado de estudos científico-religiosos com a nossa própria cultura e religião na qual vivemos. O estudo de outras religiões nos impele a refletir sobre a nossa e a sermos mais tolerantes.  
  
Outra questão pertinente para a Ciência da Religião Aplicada tem a ver com o papel do pesquisador (o cientista da religião) no processo de pesquisa científico-religioso. Para responder essa questão devemos levar em conta dois fatores: o fator subjetivo e o objetivo.

O primeiro tem a ver com as condições estruturais para a realização das pesquisas que podem distorcer os resultados, como por exemplo, as características históricas, culturais e científicas de uma determinada época;

Por outro lado temos o posicionamento pessoal do pesquisador, que desempenha um papel importante na pesquisa científico-religiosa, quando, por exemplo, atitudes negativas ou positivas acerca da religião exercem seus efeitos sem que isso seja explicitamente levado em conta durante a pesquisa.

Para evitar que uma pesquisa seja comprometida, o cientista da religião deve estar comprometido com o princípio da abstinência de julgamento (suspensão do juízo, conhecido também como ateísmo metodológico) da suposta qualidade dos fenômenos religiosos investigados.  

Assim, nas suas investigações o cientista da religião:

Deve descobrir o que é religião, qual base ela tem com a alma do homem e quais as leis que seguem no seu percurso histórico;

Deve por entre parêntesis os seus interesses religiosos individuais e “assumir o ponto de vista do observador” norteado pelo objetivo de coletar, ordenar e categorizar fatos observados;

Deve adotar uma postura metodológica, em que tenha distanciamento necessário para analisar os fatos, evitando emitir juízos de valor que possam, comprometer os resultados finais, ou seja, o cientista da religião metodologicamente deve adotar o que se chama de agnosticismo e ateísmo metodológico.  

Sendo assim, no espectro da Ciência da Religião Aplicada, o trabalho do cientista da religião, não se restringe sua atuação ao mero registro e a mera recepção de dados pré-estabelecidos, mas, ao contrário, participar pessoalmente dos processos que conduzem à constituição do objeto da Ciência da Religião.  

A Ciência da Religião como área singular, o teor de sua aplicação pode ser variado, a depender das situações e dos sujeitos que a demandam:

O pedagógico que pretende educar e informar grupos e sujeitos;

O terapêutico que pretende direcionar posturas e comportamentos para metas humanas pré-estabelecidas;

O tecnológico que visa precisamente configurar novas condições históricas e institucionais.

Ainda podemos destacar a Ciência da Religião Aplicada às Relações Internacionais, à Educação Sociopolítica; ao Patrimônio Cultural; à Teologia; à Ação Pastora; à Psicoterapia.

Ao procurar por momentos da Ciência Aplicada da Religião no sec. XX encontramos três acadêmicos importantes: o teólogo  protestante alemão Gustav Mensching (1901-1978), o professor, historiador das religiões Mirceia Eliad (1907-1986) e o professor canadense de religião comparada Wilfred Cantwell Smith (1964-1973). Eles estão entre os mais conhecidos, mas provavelmente não são os únicos nessa disciplina.      

Referências:

CARL, Rogers; [et All]. Em busca de vida: da terapia centrada no cliente à abordagem centrada na pessoa. 2ª edição. Tradução de Afonso Henrique L. da Fonseca. SUMUS EDITORIAL LDA, 1983.   
Compêndio de Ciência da religião/ João Décio Passos; Frank Usarski (org.). - São Paulo: Paulinas, 2013.     
HOCK, Klauss. Introdução á Ciência da Religião. São Paulo – SP: Edições Loyola, 2010.  




[1] De acordo com Klauss Hock, “o objetivo da Fenomenologia da Religião é ordenar sistematicamente os distintos fenômenos religiosos, definir seus conteúdos religiosos e compreender, dessa maneira, a “essência” da religião. Na segunda metade do séc. XX, a Fenomenologia da Religião em sua forma tradicional se tornou alvo de fortes críticas. Por isso, os primeiros novos inícios são tímidos, renunciam deliberadamente a essa “contemplação” da essência e dirigem sua atenção à pergunta pelas suas intenções, com as quais pessoas atribuem aos fenômenos um sentido religioso, isto é, um sentido que é, para elas, obrigatório e inquestionável”. (HOCK, Klaus, 2010, p. 14).  

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O MISTÉRIO ETIMOLÓGICO DO TERMO "RELIGIÃO".



Muitas religiões tem narrativas, símbolos. tradições e histórias sagradas que se destinam a dar sentido à vida ou explicar a sua origem e do universo. Porém, não há consenso na definição do termo. Algumas definições clássicas devem ser mencionadas, pelo seu valor histórico e formador do campo semântico coberto pelo termo religião.

Religião, (do latim religare, de significado especulativo) é um conjunto de sistemas culturais, de crenças e visão de mundo que estabelece os símbolos que relacionam a humanidade com a espiritualidade e seus valores morais. 

Historicamente foram propostas várias etimologias para o termo religio
Cícero (106-43 a.C), na sua obra De natura deorum afirma que o termo se refere a relegere, reler, sendo caraterístico das pessoas religiosas que prestarem muita atenção a tudo que se relacionava com os Deuses  relendo as Escrituras.
Mais tarde Lactâncio (séc. III-IV d,C) rejeita a interpretação de Cícero e afirma que o termo religare, religar, argumentando que a religião é um laço de piedade que serve para religar os seres humanos a Deus.
No livro "A Cidade de Deus" Agostinho de Hipona (sec. IV d.C) afirma que religio, deriva de religare, "reeleger". Através da religião, a humanidade se liga de novo a Deus do qual separou. Mais tarde Agostinho na obra "De vera religione" retoma a interpretação de Lactâncio que via em religio uma relação com "religar".
Recentemente foi proposta um terceira variante: derivar religio de rem ligare, "amarrar a coisa", no sentido de descansar das inquietudes.  
O debate sobre a derivação certa do termo religião mostra que a definição do termo não é possível nos moldes de uma definição objetiva "dada", mas permanece vinculada a um contesto histórico-cultural específico.  

Com a Reforma, "religião" se torna um termo que desempenha uma função crítica: contra "superstição" e "magia", mas também contra a atuação cúltica da Igreja Católica Romana em seus serviços divinos que, aos olhos dos reformadores era errada.

No Iluminismo a religião aparece como um "todo" ideal que está presente nas religiões somente na forma truncada e insuficiente. A religião em si é tirada da competência da Crítica da Religião, já que em tal forma sem forma ela não pode ser verificada em nenhuma realidade existente. 

De lá para cá as coisas não mudaram muito (...) Vários pensadores (antropólogos, filólogos, sociólogos, psicanalistas, filósofos) sob uma perspectiva diferente continuaram refletindo sobre a religião, ou seja, sobre a importância da religião na vida das pessoas: 
No final do séc. XIX o antropólogo Edward Burnett Tyller (1832-1917) define religião, como a crença em seres espirituais;
O filólogo e pai da Ciência da Religião Max Müller (1823-1900), afirma que a religião é a habilidade e experimentar o infinito no finito;  
Para o antropólogo Malinowski (1884-1942), a religião ajuda as pessoas a suportarem "situações de pressão emocional abrindo fuga a tais situações e tais impasses que nenhum outro caminho empírico abriria, exceto através do ritual e da crença no domínio do sobrenatural". Para ele: "a esperança não pode falhar nem o desejo de enganar".  
Segundo Malinowski (1988): 
[...] em tudo a religião contraria as forças centrifugas do medo, da dor, da desmoralização e proporciona o meio poderoso de integração da abalada solidariedade do grupo e de restabelecimento  da sua moral. Em breves palavras, religião garante a vitória da tradição e da cultura sobre as reações negativas do instinto perturbado.   
Para Émile Durkheim (1858-1917), sociólogo, antropólogo, cientista político, psicólogo social e filósofo francês "a religião é um conjunto de práticas e representações revestidas de caráter sagrado. Segundo ele, a religião também pode ser definida como "um sistema solidário de crenças e práticas relativo as entidade sacras, quer dizer, separadas, proibidas; crenças e práticas que unem em uma mesma comunidade moral, chamada de Igreja, a todos que aderem a ela". 
O psicanalista Erik Erikson (1902-1994), define a religião em seu estudo sobre o jovem Lutero como uma forma de tradução em palavras, imagens e códigos significativos do excesso de obscuridade que envolve a existência humana;
Byrne, um estudioso dedicado a analisar e criticar definições de religião, propõe uma definição em uma vertente moral. Segundo ele:

 [...] Uma religião é um sistema simbólico (quando associado com crenças e práticas) que articula o pensamento de que há uma fonte de moral por trás do mundo, e que o pensamento de que os reinos dos valores e dos fatos estão, em última análise unidos. 
Embora seja notório que as definições em si estabelecem, se forem cuidadosamente construídas elas podem, por elas mesmas, fornecer uma orientação útil do pensamento, de forma que desenrolá-los pode ser um caminho efetivo para desenvolver e controlar uma linha nova de pesquisa. Elas tem a virtude muito útil de serem explicitas: elas se comprometem de uma forma que a prosa discursiva não assume, pois, sempre está disposta a substituir o argumento por uma retórica, especialmente neste campo.

Nesse aspeto, a definição de religião do antropólogo Clifford Geertz (1926-2006) é de extrema importância, pois, sua definição é apontado por muitos estudiosos como sendo a definição da religião (ainda que muitos a critiquem), que facilita as ideias modernas de tolerância e diálogo entre as religiões hoje existentes.

Segundo ele, a religião é:
(1) um sistema de símbolos que atua para;
(2) estabelecer poderosas, penetrantes e duradouras disposições e motivações nos homens através da;
(3) formulação de conceitos de uma ordem de existência geral, e;
(4) vestindo essas concepções com tal aura de factualidade que;
(5) as disposições e motivações parecem singularmente realistas.  
Como se pode ver através da leitura atenta da definição, ela contemplada algumas caraterísticas básicas das religiões (símbolos, valores, normas, crença em divindades, submetendo-se aí, mitos e rituais). Com isso acaba sendo a perspetiva sobre o tema que fornece elementos à visão dominante no ocidente, nos meios de comunicação, nas escolas e mesmo na educação familiar. 

Devemos estar conscientes do fato de que "religião" tanto no que se refere à definição de seu conteúdo como a respeito das suas funções, está atualmente submetida a uma rápida mudança e profundas transformações. Religião, política, esporte como religião, religião na cultura popular, religiões e meios de comunicação, nova religiosidade, New Age etc. Seriam alguns tópicos que indicam esse tipo de transformação. Essas mudanças e rupturas poderiam nos obrigar a procurar por um novo termo religião que reflita de modo adequado a situação transformada. 


Do ponto de vista filosófico encontramos ao longo da história, pensadores que refletem sobre o conceito de religião, não tendo como objeto sua origem etimológica, e sim a natureza de sua origem, em destaque a origem naturalista, a psicológica e a social.

O primeiro teorizador da origem naturalista da religião foi Epicuro. Para ele, o facto de o homem não conhecer devidamente a natureza nem conseguir controlar um grande número de fenômenos naturais, leva-o a acreditar na existência de seres que tudo sabem e tudo podem fazer em seu próprio proveito. 
O primeiro teorizador da origem psicológica da religião foi Sigmund Freud. Para este autor, a religião nasce do facto de o homem não conseguir dominar a imensa complexidade de forças contrastantes que atuam dentro de si mesmo e é naturalmente levado a convencer-se da existência de um ser todo poderoso, cujo poder se faz sentir dentro de si mesmo, para que se coloque em tudo na sua dependência. 
O primeiro teorizador da origem social da religião foi Emile Durkheim. Para este autor, "a sociedade contém todos os ingredientes para fazer despertar nos seus membros o sentido do divino". A sociedade é um "grande pai", que impõe a sua vontade a todos os "filhos" e tudo dirige para manter a sua autoridade sobre a vontade dos indivíduos. Com base na predisposição para a obediência, assim gerada entre os seus membros, a sociedade tudo faz para canalizar este estado de espírito em proveito da sua estabilidade.
Já para o  teólogo e filósofo Giordano Bruno (1548-1600)  e o historiador, poeta, diplomata Maquiavel (469-1527) defendiam que a Religião em si mesma representa a forma espontânea de vida em sociedade por parte do povo simples e constitui a mais lídima expressão do seu desejo de justiça, do seu amor à liberdade e da sua adesão espontânea aos bons costumes.


Segundo o filósofo Alemão Feuerbach (1804-1872), a religião não é mais do que uma manifestação do homem enquanto tal, cuja dimensão e poder ultrapassam em muito as dimensões concretas e capacidades próprias de cada indivíduo em particular.

Segundo o filósofo Alemão Nietzsche (1844-1900), a religião é uma expressão natural e intrínseca ao homem, reflexo dum "poder de ser", que o habita e ultrapassa tudo quanto na sua existência, pelas práticas habituais, é posto em ação. A religião situa-se ao nível duma experiência do incomensurável, que penetra o mais profundo do ser humano.


Origem etimológica do termo "religião" sob a perspetiva do Cientista da Religião, Frank Usarski



Referências


DALGALARRONDO, Paulo. Religião, psicopatologia e saúde mental. Porto Alegre: Artmed, 2008.
OLIVEIRA, Altemar. Compendio de Teologia e Religião. 1a edição. 2014.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. 1 ed. - Rio de Janeiro: LTC, 2014.
HOCK, Klaus. Introdução à Ciência da Religião. Tradução de Monika Ottermann. Edições Loyola, São Paulo, Brasil 2010.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS DENTRO E FORA DAS ESCOLAS


       Na carta de abertura do livro África e Brasil Africano (2007), dirigida aos professores brasileiros, Maria de Mello Souza,   alerta à todos que, "desde 2003, a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) institui a obrigatoriedade do ensino de História da África e dos africanos no currículo escolar do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Contudo, trazer para a sala de aula a história da África e do Brasil é, antes de mais nada, fazer cumprir nossos grandes objetivos como educadores":

Refletir sobre a discriminação racial e sexual, valorizar a diversidade étnica, gerar debates, estimular valores de respeito, de solidariedade, de tolerância [...] É a oportunidade de levantar a bandeira de combate ao racismo e a descriminação que atingem particularmente a população negra, afro-brasileira ou afrodescendente. (SOUZA, 2007).

        Ela afirma que, "trazer para a sala de aula esse tema é dar oportunidade aos alunos de desvendar a sua própria cultura, reconhecendo no outro uma parte de si mesmo. Para isso, é preciso mostrar o que há de africano no Brasil e contar coisas da África que ainda são pouco conhecidas. Se os brasileiros são o resultado da mistura de Índios, africanos e portugueses, outros emigrantes só passaram a vir em maior número a partir do século XIX, por isso, é necessário conhecer melhor o que esses antepassados deixaram como herança". 

É preciso mostra aos alunos e professores que, a diáspora forçada dos africanos para o Brasil, no qual diversos grupos humanos foram deslocados de suas sociedades e instituições religiosas, fez com que transladassem para o novo espaço social uma pluralidade de culturas, valores e práticas religiosas. Os escravos trouxeram com eles “fragmentos de cultura”, porém, desprovidas de instituições sociais que lhes davam expressão. Então, a constituição de comunidades religiosas afro-brasileira é o resultado do processo de reconstrução de novas identidades religiosas por essa pluralidade de fragmentos culturais. 

A reinstitucionalização das religiões africanos no Brasil ocorreu não só como uma forma coletiva de resistência cultural, mas, em primeira instância, como uma necessidade para enfrentar o infortúnio ou os “tempos de experiência difícil”, dos quais a escravidão é sem dúvida um dos casos mais extremos. Por isso, o sincretismo afro-católico encontra suas raízes nessa pluralidade surgidas ainda no séc. XVII e que desenvolveram principalmente no séc. XVIII. De acordo com Edilece Sousa Couto:

Apesar das discordâncias teóricas e metodológicas, há consenso que o sincretismo afro-católico foi possível pela existência dos seguintes fatores: tráfico de escravos no período colonial, o trabalho desses na lavoura açucareira e o esforço de conversão dos negros ao catolicismo empreendido pelos religiosos. (COUTO, E.S, 2010, p. 57)

Falar sobre os temas, religião e ensino religioso nas escolas brasileiras está longe de ser um tema pacífico, tendo em conta a complexidade do seu objeto e dos vários equívocos e obstáculos que tiveram que ser superados ao longo dos tempos. Mas, quando se fala das religiões afro-brasileiras e do ensino das mesmas, os equívocos e os desafios são ainda maiores. De acordo com Leila Leite Hernandez:  

Isso acontece porque o conjunto de escritos sobre África, e em particular entre as últimas décadas do séc. XIX e meados do sec. XX contém equívocos, pré-noções e preconceitos decorrentes em grande parte das lacunas do conhecimento quando não do próprio desconhecimento sobre o referido continente. (HERNANDEZ, 2005, p. 18).

Segundo ela os africanos são identificados com designações apresentados como inerentes às características fisiológicas baseados em certa noção de raça negra. Assim:

O termo “africano” ganha um significado preciso: negro ao qual se atribui amplo espectro de significações negativas tais como: frouxo, fleumático, indolente e incapaz, todas elas convergindo para uma imagem de inferiorioridade e primitivismo [...] Classificado em cinco variedades, cujas principais delas são sumariadas em seguida: Homem selvagem, quadrúpede, mudo, peludo, atrasado. (HERNANDEZ, 2005, p. 19).  

Pela complexidade da dinâmica cultural própria da África, torna-se possível o agrupamento de suas especificidades em relação ao continente europeu e mesmo americano. Quanto às diferenças, elas são tratados segundo um modelo de organização social e política, bem como padrões culturais, próprios da civilização europeia. Em outros termos: aproximando por analogia o desconhecido ao conhecido considera-se que a África não tem povo, não tem nação nem Estado; não tem passado, logo, não tem História.  
Nesse sentido é possível acentuar três pontos:

Primeiro: é conferido à África um estado de selvageria, no qual predomina a natureza, isto é, não produzem cultura e história;
Segundo: é o que distingue os africanos dos europeus e os próprios africanos entre si;
Terceiro: é o que se refere ao africano da África subsaariana como sujeito sem vontade racional, equivale dizer, sem o elemento tido como pré-requisito para a transformação da realidade de acordo com os critérios reacionais.

Em resumo, esse sujeito não tem condições de ultrapassar os limites da selvageria e de buscar um novo estado de existência, ou seja, os africanos negros, desde o início foram classificados entre os povos sem cultura, sem história, sem religião, incapazes de alcançar o estatuto de protegidos, portanto, pouco susceptíveis de possuírem línguas e culturas respeitáveis.[1]    

O Brasil teve com seus primeiros moradores, os índios, um sistema de crenças relacionadas ao animismo. Por sua vez, os “descobridores” e os colonizadores do Brasil trouxeram consigo o cristianismo. Os africanos trazidos para cá como escravos trouxeram consigo suas respectivas religiões. Mas, a expressão de qualquer religiosidade diferente da permitida pela Igreja Oficial foi cerceada.

Ao longo dos quatro primeiros séculos, o Brasil se constituiu como uma sociedade unireligiosa, tendo o catolicismo como religião oficial. O catolicismo foi a religião oficial do Brasil até 1890.[2] Até a proclamação da República as religiões afro-brasileiras, os judeus e os protestantes não só estavam proibidos de manifestar suas crenças e práticas, mas também, tinham seus direitos sociais e políticos restringidos. O pluralismo religioso era combatido como um perigo e uma ameaça ao próprio fundamento sobre a qual estava construída a nação brasileira.[3]   

Mas, como se sabe, a construção de um ensino realmente democrático e laico refletindo a realidade pluralista da sociedade brasileira passa, obrigatoriamente, pela valorização e ensino dos fundamentos filosóficos e cosmológicos das religiões afro-brasileiras. Importante citar o capítulo que trata com a intercessão do tema é a Lei 10639/2003, ou seja, como as religiões afro-brasileiras podem contribuir na implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Etnico-Racial e a História e Cultura Afro-Brasileira e Africana?

Com efeito, o Ensino de forma geral e o Ensino Religioso em particular, devem divulgar os conceitos estruturais das visões do mundo contidas nas religiões de origem africana, bem como seus desdobramentos como elementos definidores da identidade dos afro-descendentes, em particular, quanto da identidade da própria nação, contribuindo para:
1. Desmistificar preconceitos;
2. Superar a folclorização das culturas de matriz africanas;
3. Ressaltar que as comunidades-terreiro tem uma pedagogia que lhe é próprio;

4. Desconstruir e entender o imaginário social do povo brasileiro.
Mas, o que se verifica é que as religiões afro-brasileiras muitas vezes são classificadas como “seitas demoníacas”, por outras religiões e seus seguidores. Elas não vêm merecendo a devida inclusão no contexto do Ensino Religioso nas escolas públicas e particulares, e quando isso acontece, são visíveis atos de intolerância e preconceito. Mas, é preciso enfatizar que as religiões afro, ou seja, as comunidades do Candomblé[4] e da Umbanda[5] fazem parte da sociedade brasileira, atuando diretamente no sistema sociocultural, não obstante conservarem uma dinâmica específica e uma identidade própria. De acordo com Anderson Pereira Portuguez:

Mesmo com as chamadas de políticas de promoção de igualdade racial, com as cotas para negros em Universidades, leis que exigem o ensino da história da África, tombamento de casas como patrimônios da cultura brasileira, registro de práticas culinárias como bens imateriais de nossa cultura e outras ações, mesmo com tudo isso, a cultura brasileira em seu conjunto ainda reflete uma sociedade que se vê branca, cristã[6] e superior, enquanto as comunidades de terreiros seriam nada mais do que uma gente equivocada em suas concepções folclóricas, pobre e preta. (PORTUGUEZ, 2015, p. 112).

Nesse aspecto o objetivo principal do ensino das religiões afro-brasileiras, seria o de “descobri em todas as variantes brasileiras da religião tradicional africana os componentes fundamentais na luta pela justiça e construção da fraternidade, para superar a concepção de religião como um ‘resíduo cultural do passado’”. Para atingir esse objetivo, o professor do Ensino Religioso, ao abordar as religiões afro-brasileiras, nas suas aulas, pode explorar diversas atividades e dinâmicas tais como:
a)   Pesquisa sobre a relação dos cultos afro-brasileiros com a realidade atual do país; 
b) Pesquisa sobre a contribuição da religião negra ao catolicismo brasileiro: o sincretismo na Bahia, as irmandades e o catolicismo mineiro, tambor de mina no Maranhão, umbanda no Rio de Janeiro e em São Paulo, Batuque no Rio Grande do Sul, pajelança no Norte e no Nordeste...
c) Verificar se hoje, a religião tem algum peso na luta dos movimentos populares;
d) Identificar nos Orixás elementos simbólicos da capacidade guerreira do negro;
e) Debates;
f) Júris simulados [...]
De realçar que, os traços culturais e religiosos determinantes da africanidade no Brasil, provêm basicamente de dois grupos civilizatórios: o dos povos bantos de Angola. Congo, Moçambique etc.; e dos povos sudaneses ou minas como os Iorubás, Jejes e axantis. Dos bantos, o Brasil recebeu as vertentes praticadas, sobretudo, no Sudeste e que acabaram por prevalecer, no seu seio – depois de sincretizações com cultos indígenas, o catolicismo, o kardecismo e outras práticas, a Umbanda, em suas várias modalidades. Dos minas, principalmente, daqueles do antigo Daomé e da Nigéria chegaram as raízes do candomblé jeje-nagô e dos cultos aos vuduns, difundidos a partir da Bahia bem como de mina maranhense. Outras formas religiosas, entretanto, se construíram por sincretizações e misturas de várias naturezas. Em todas elas, a partir de princípios filosóficos africanos em maior ou menor grau assimilados, cultuam-se divindade ligados a natureza, antepassados, espíritos protetores de rios, cidades etc. 

As religiões afro-brasileiras tem como base a oralidade, a escuta do outro, o respeito, onde a noção de hierarquia organiza e dá substância às ações no espaço religioso e na comunidade. Essa ação se coaduna com uma educação dialogada, libertadora onde educando e educador aprendem juntos e constroem uma sociedade mais democrática. Para os especialistas da educação é Paulo Freire na sua melhor concepção de palavra e ação, até porque a ação nesses espaços só acontece com a apropriação das tradições e das ações delas advindas, ou seja, a práxis, é a forma por excelência das ações feitas nas religiões afro-brasileiras.

Em 2010, com a promulgação da Lei 12. 288/2010 pela Presidência da República, o Governo Federal ampliou a possibilidade de defesa às religiões afro-brasileiras e definiu o entendimento do Estado brasileiro acerca da discriminação racial. Considera-se a descriminação racial como:


Toda distinção, exclusão ou preferência baseada na raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objetivo anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício, em igualdade de condições, de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos, político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro campo da vida pública ou privada. [Artigo 2, Inciso I].         

Às religiões afro-brasileiras são asseguradas várias garantias. De acordo com o capítulo II do Estatuto, reservado o direto à Liberdade de Consciência e de Crença e ao livre exercício de Cultos Religiosos:
Art. 26. O direito a liberdade de consciência e de crença e ao livre arbítrio das religiões afro-brasileiras compreende:
I. As práticas litúrgicas e as celebrações comunitárias bem como a fundação e manutenção, por iniciativa privada, de espaços reservados para tais fins;
II. A celebração de festividades e cerimônias de acordo com os preceitos de religiões afro-brasileiras;
III. A fundação e a manutenção, por iniciativa privada, de instituições beneficentes ligadas às religiões afro-brasileiras;
IV. A produção, a aquisição e o uso de artigos e materiais religiosos adequados aos costumes e às práticas litúrgicas das religiões de matriz africanas;
V. A produção e a divulgação de produções relacionadas com o exercício e a difusão das diversas espiritualidades afro-brasileiras;
VI. A coleta de contribuições financeiras de pessoas naturais e jurídicas de natureza privada para a manutenção das atividades religiosas e sociais das religiões afro-brasileiras;
VII. O acesso aos órgãos e meios de comunicação para a divulgação das respectivas religiões e denuncia de atitudes e práticas de intolerância religiosas contra os cultos.   
No mesmo capítulo, no Art. 29, o Estatuto prevê que o estado deve se responsabilizar pela defesa das religiões frente á intolerância religiosa: Art. 29. O Estado adotará medidas necessárias para o combate contra a intolerância contra as religiões de matrizes africanas e a discriminação de seus seguidores, especialmente com o objetivo de:
I. Coibir a utilização de meios de comunicação social para a difusão de proposições, imagens ou abordagens que exponham pessoa, grupo ao ódio ou ao desprezo por motivos fundados na religiosidade de matrizes africanas;
II. Inventariar, restaurar e proteger os documentos, obras e outros bens de valor artístico e cultural, os monumentos, mananciais, floras e sítios arqueológicos vinculados às religiões de matrizes africana;
III. Assegurar a participação proporcional de representantes das religiões de matrizes africanas, ao lado de representações das demais religiões, em comissões, conselhos e órgãos, bem como em eventos e promoções de caráter religioso.
Apesar do suporte legal, as religiões de matrizes africanas, são em diversas circunstâncias objeto de intolerância religiosa, principalmente de outras confissões religiosas e seus seguidores. Para Vagner Gonçalves da Silva (2007) os ataques perpetrados pelos neopentecostais às religiões afro-brasileiras no Brasil, acontecem uma vez que:

Com o acréscimo do prefixo latino “neo” pretendeu-se expressar algumas ênfases que as Igrejas identificadas nessa fase assumiram em relação ao campo do qual, em geral, faziam parte: abandono do ascetismo, valorização do pragmatismo, utilização de gestão empresarial na condução dos templos, ênfase na teologia da prosperidade, utilização da mídia para o trabalho de proselitismo em massa e de propaganda religiosa e centralidade da teologia da batalha espiritual contra as outras denominações religiosa, sobretudo, as afro-brasileiras e o espiritismo.[7]

Ainda de acordo com Silva, as escolha dos neopentecostais de centrar a teologia da batalha espiritual contra as religiões afro-brasileiras não é apenas uma estratégia de disputa de mercado religioso. Para o autor, o combate a essas religiões teria menos o caráter proselitista voltado para garantir fiéis desses segmentes, embora tenha esse efeito, é mais uma forma de atrair fiéis ávidos pela experiência de religiões com forte apelo mágico, extáticas, com vantagem da legitimidade social conquistada pelo campo religioso cristão. Silva relata que, a “demonização” das religiões afro-brasileiras propagada pelo neopentecostalismo já estava presente em fases anteriores do movimento pentecostal, como elemento da teologia da cura divina. Ainda segundo ele, um dos indícios iniciais do acirramento dessa batalha e da escolha das religiões afro-brasileiras como alvo principal pode ser identificado na publicação do livro Mãe-de-santo (1968), do missionário canadense Walter Robert McAlister, fundador da Igreja Pentecostal de Nova Vida do Rio de Janeiro em 1960.   

Voltando a questão do Ensino Religioso, e especificamente das religiões afro-brasileiras é necessário que se constitua como área de conhecimento balizada pelo paradigma da diversidade. Ou seja, reconhecer e valorizar a existência da diversidade é um passo necessário para a conscientização das pessoas da importância do Ensino das religiões afro-brasileiras nas escolas. Aliás, a diversidade é expressa em frutos que surgem a partir da multiplicidade de ações que a tornem visível. O Ensino das religiões afro-brasileiras torna-se um espaço de tomada de consciência de que existem tantas diferenças presentes na mesma realidade.

Então, a aula de Ensino religioso deve tornar-se num espaço de convívio das diferentes identidades que se dão a conhecer e se tornam conhecidas. O respeito pela diversidade não se desenvolve apenas pelo estudo de textos análise de filmes e outras atividades. Essas atividades são, obviamente, meio essenciais de sensibilização, mas é preciso mais. Precisa-se de experiências e vivências para que o conceito da diversidade seja apreendido e entre no imaginário estudantil. É preciso conviver com as outras identidades.   



Referências

ALMEIDA, Rosiane Rodrigues de. Quem foi que falou em igualdade? 1ª edição. Editora autografia Edição e cominicação Lda. Av. Rio Branco, 2015. 

COUTO, E.S. Tempo de festas: homenagem à Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição e Sant´Ana em Salvador (1860-1940) [online] Salvador: EDUFRA, 2010.

HERNANDEZ, Leila Maria Gonçalves Leite. A África na sala de aula: visita à história contemporânea. São Paulo: Selo Negro, 2005.

História Geral da África, III, África do Sec. VII/ citado por Mahammad El Fasi. – Brasília, UNESCO, 2010. 

LOPES, Ney. Dicionário escolar afro-brasileiro. 2ª edição.  São Paulo: Selo Negro, 2014.

PORTUGUEZ, Anderson Pereira. Espaço e cultura na religiosidade afro-brasileira. Ituiuitaba: Barlavento, 2015. 

PREVITALLI, Ivete Miranda. Candomblé agora é Angola. – São Paulo: Annablume; Petrobrás, 2008.`


SOUZA, Maria de Mello e. África e Brasil africano. 2a Edição. São paulo: Ática, 2007.






[1] Esta questão tem importância por ter sido um dos problemas mais apaixonadamente debatido no colóquio árabe-africano organizado em Dakar, de 9 a 14 de abril de 1984, pelo Instituto Cultural Africano (ICA) e a Organização Árabe para a Educação, a Cultura e as Ciências (ALESCO, sigla em inglês) sob o tema das “relações entre as línguas africanas e a língua Árabe”. As conclusões gerais desse colóquio estabeleceu que nenhuma língua africana sofreu prejuízo de qualquer espécie em suas relações com a língua árabe [...] (In: História Geral da África, III, África do Sec. VII/ citado por Mahammad El Fasi. – Brasília, UNESCO, 2010, p.114). Ser católico não era uma opção pessoal, mas uma pré condição para o exercício da cidadania. Noutras palavras, só eram considerados cidadãos, de direito aqueles que professavam a fé católica.    
[2] DAMATA, 2011, p.113 apud SCHOCK, Marlon Leandro, 2012, p. 52.
[3] FONAPER, Ensino Religioso. A diversidade cultural religiosa do Ensino Religioso, p. 7.
[4] De acordo com Ivete Miranda Previtalli, “o candomblé é uma religião afro-brasileira que nasceu no séc. XIX, em Salvador e foi fundado por mulheres. Durante mais de um século foi uma religião perseguida, provavelmente porque eram escravas as suas formadoras. No entanto ela não terminou, ao contrário espalhou-se. Tem-se essa modalidade religiosa no Rio de janeiro, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Sergipe, Maranhão, Pernambuco, Minas Gerais e São Paulo”. (PREVITALLI, Ivete Miranda, 2008, p. 13). 
[5] A Umbanda é uma religião afro-brasileira, nascida oficialmente em 1908 em Niterói, RJ cujo ritual baseia-se em ensinamentos repassados por espíritos protetores de grande sabedoria e luz. Esses espíritos, embora possam possuir identidades diversas, geralmente se apresentam nos terreiros de forma anônima, usando uma “roupagem” espiritual padronizada, que representa os extratos sociais mais excluídas da sociedade brasileira: pretos-velhos, Iidosos negros que foram escravizados), Crianças espirituais e o chamado “povo da esquerda” (Pombas giras, Boiadeiros, Marinheiros, Malandros, e Exus [...]) (PORTUGUEZ, 2015, p. 118).
[6] Em função do sincretismo, boa parte do movimento umbandista professa princípios cristãos, muitas vezes como mais eloquência que aqueles herdados da cultura africana. Esse “branqueamento” da Umbanda faz com que muitas vozes do movimento umbandista tratem segmentes mais africanizados da religiosidade afro-brasileira com preconceito, reproduzindo  conceitos e discursos segregacionais adquiridos das religiões dominantes. (PORTUGUEZ, 2015, p. 112).
[7] SILVA, 2007, p. 208 apud ALMEIDA, 2015, p. 31,32.