Pesquisar neste blogue

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Filosofia da Religião

"A filosofia da religião é uma disciplina filosófica relativamente recente, que não deve ser confundida com a teologia natural ou teodiceia, que trata de demonstrar racionalmente a existência de Deus (a filosofia da religião pode inclusive prescindir de Deus). O mundo ocidental vivia, anteriormente, instalado numa exclusiva fé religiosa, a cristã (depois da reforma protestante o problema da confissão cristã verdadeira é uma questão apologética, e não filosófica); nos dias atuais, a religião se apresenta como autêntico problema filosófico, seja em virtude do fenômeno do pluralismo religioso, fato que nos impele a investigar o que é essencial a todas as religiões (a questão da religião verdadeira já é um assunto de fé, não de razão), seja em virtude da negação do religioso, o que nos leva a perguntar se a religiosidade, enquanto tal, é algo constitutivo da pessoa humana (e como seria possível uma tal negação)."
LEIA MAIS EM  

Diálogos: Filosofia da Religião



Diálogos: A Filosofia da Religião na Atualidade


CLIQUE AQUI E ASSISTA OUTROS VÍDEOS...

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa [21/01]


Conhecer melhor a própria religião e a religião alheia pode ser instrumento necessário para o convívio pacífico e respeitoso entre pessoas de diferentes crenças. 

Como dizia Gandhi “Não quero que minha casa seja cercada por muros de todos os lados e que as minhas janelas estejam tapadas. Quero que as culturas de todos os povos andem pela minha casa com o máximo de liberdade possível”.

Isto não significa a perda das próprias raízes e convicções, ao contrário, significa maior clareza de suas próprias opções a ponto de ter os braços e as mãos livres para dá-los aos demais respeitando o direito à diferença e à liberdade de opção religiosa, inclusive a liberdade de não possuir crenças religiosas...
Arlindo Rocha 

A origem da Suástica




A suástica não nasceu com o partido nazista alemão. Esse símbolo foi encontrado em culturas do neolítico (pelo menos 4 mil a.C) e sua presença é também constatada em diversas outras culturas antigas como a bizantina na Europa, pelos maias e astecas na América Central e índios navajos na América do Norte. Foi um símbolo usado também pelos hinduistas, budistas e jainstas da Índia.



Diferente do seu significado atual, a suástica dentro da maioria das culturas era símbolo de coisas boas, de boa sorte. No sânscrito, língua antiga, a palavra svastika significa "condutora de bem-estar".


Como símbolo de boa-sorte a suástica era usada para ornamentar objetos domésticos e até moedas.

Foram trabalhos acadêmicos de jovens alemães no século XIX que defenderam a ideia de que os indianos e os alemães tiveram a mesma origem nos povos arianos. A partir daí os movimentos antissemitas começaram a usar a suástica na defesa do nacionalismo alemão. Mas foi o poeta alemão Guido List que sugeriu o seu uso em 1920 como símbolo do Partido Nacional Alemão.

Até 1930 a suástica era um símbolo comum usado inclusive por empresas como a coca-cola e mesmo por escoteiros-mirins.

Os pesquisadores levantam hipóteses que a suástica pode ter sido nas culturas antigas símbolo de fertilidade, uma roda de vento, cometa, símbolo de uma deusa ou mesmo símbolo de um pássaro

Prof. Guto Josman

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Na Bíblia, qual foi o único momento em que Cristo foi violento?


Carregado por: CANAL BOLADA,11/01/2018
“A religião sempre foi um negócio rentável. E se acontecer de você ser um pregador evangélico brasileiro, as chances de ganhar na loteria celestial são realmente muito altas hoje em dia”. 
Fonte: Forbes  


quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Qual a diferença entre árabe, curdo, turco, persa, sunita e xiita?

Não confunda: árabes, curdos, turcos e persas são grupos étnicos que habitam diferentes países; já sunitas e xiitas são vertentes da religião islâmica.

Para começar, é preciso fazer uma distinção básica: árabes, curdos, turcos e persas são grupos étnicos, enquanto xiitas e sunitas são seguidores de correntes do islamismo. Nem todo muçulmano é árabe, nem todo árabe é muçulmano.

Os árabes são o maior grupo étnico do Oriente Médio. São maioria no Egito, Jordânia, Síria, Líbano, Iraque, nos países da península Arábica e nos territórios sob a Autoridade Palestina. Também estão presentes nos países do norte da África, reunindo ao todo 415 milhões de pessoas. O grupo é originário da península Arábica, de onde se espalharam, a partir do século 7, em uma grande corrente migratória provocada pela expansão do islamismo. O principal fator que os une, porém, não é a religião, mas a língua, que pertence ao tronco semítico (assim como o hebraico).

Os persas são descendentes de povos indo-europeus que chegaram à região do Irã através da Ásia Central por volta do ano 1000 a.C. A língua é escrita em caracteres árabes, mas é parente da nossa. “Sendo uma língua indo-europeia, o persa é mais próximo do português que do árabe”, afirma Paulo Daniel Farah, professor de Língua, Literatura e Cultura Árabes da Universidade de São Paulo.

Os turcos são originários da Ásia Central, de onde migraram por volta do século 10. Eles formam mais de 80% dos habitantes da Turquia. O idioma era escrito em caracteres árabes até 1929, quando se adotou o alfabeto latino. Não confunda árabe com turco. Durante seis séculos, até a Primeira Guerra Mundial, os árabes do Líbano e da Síria foram dominados pelo Império Turco-Otomano. A confusão veio dos passaportes que eles usavam para entrar no Brasil – o documento era turco, mas o portador era árabe.

Os curdos são o maior grupo étnico sem Estado do mundo. Embora não haja um número exato dessa população, o Instituto Curdo de Paris, uma entidade que se dedica a estudar esse grupo, estima que existem entre 36,4 milhões e 45,6 milhões de curdos no mundo. Eles ocupam um território de cerca de 500 mil quilômetros quadrados – maior que o do Iraque – que engloba parte da Turquia, Irã, Iraque, Síria, Armênia e Azerbaijão. O idioma curdo é indo-europeu, como o persa, mas a grafia varia. “Os curdos da Turquia usam o alfabeto latino. Os da Síria, Iraque e Irã usam o árabe”, diz Farah.

Religião
Mais de 90% da população do Oriente Médio professa o islamismo. A religião, que conta com 1,8 bilhão de fiéis em todo o mundo, tem duas principais vertentes: o sunismo e o xiismo. Os sunitas são maioria, cerca de 85% do total. A palavra vem do árabe sunnat annabi (“tradição do profeta”). Os xiitas são maioria apenas no Irã, Iraque e Barein.

Essa divisão existe por causa de uma disputa para decidir quem seria o legítimo sucessor político e religioso do profeta Maomé – a sua linha sucessória não estava clara. Isso gerou uma briga entre seus familiares após sua morte, e desde então os islâmicos se dividiram em vertentes com visões distintas de como as autoridades, os califas, deveriam ser escolhidos.

1. Meca
É a cidade mais sagrada para todos os muçulmanos. Ali está o santuário da Caaba, local de peregrinação anual (hajj) construído por Abraão, o patriarca bíblico. Todo fiel deve fazer suas cinco orações diárias voltado para Meca.

2. Jerusalém
O maior centro de tensão do Oriente Médio é a terceira cidade mais sagrada para os sunitas (cristãos e judeus também a têm como santuário). Lá está a mesquita do Domo da Rocha, de onde Maomé teria ascendido aos céus.

3. Karbana
Santuário xiita onde está o túmulo de Hussein, neto de Maomé. Ele acreditava ser o sucessor do profeta, mas quem assumiu o trono foi Yazid. Seu assassinato marcou o cisma entre os xiitas – seguidores de Ali, pai de Hussein – e os sunitas.

4. Najaf
A cidade é o terceiro local de adoração dos xiitas. Lá está o túmulo de Ali, genro de Maomé e pai de Hussein. Os xiitas consideram Ali o sucessor de Maomé. A cidade é aberta a não muçulmanos, ao contrário de Meca e Medina.

5. Medina
Guarda os restos mortais do profeta Maomé e foi a cidade para onde o profeta fugiu. Essa fuga, no ano de 622, é chamada de Hégira e marca o início do calendário muçulmano. É o segundo local mais sagrado para qualquer fiel do Islã.

6. Mashad
É onde está o túmulo do imã Ali al Rida, mártir para os muçulmanos xiitas. Centro importante de peregrinação no Irã, Mashad é considerada a quinta cidade mais sagrada do xiismo (o quarto lugar é ocupado por Karbala).

Fonte: 
Jornal Online Super interessante. Qual a diferença entre árabe, curdo, turco, persa, sunita e xiita? Disponível em:https://super.abril.com.br/historia/qual-a-diferenca-entre-arabe-curdo-turco-persa-sunita-e-xiita/;. Acesso em 08/01/20220



sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Diálogo Inter-religioso na Ciência da Religião Aplicada


 [PUC-MG] 

Nesse vídeo, o professor Doutor Frank Usarski, do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da PUC-SP, fala sobre as possibilidades de entendimento entre as religiões e como o Cientista  da Religião pode colaborar.



Fonte: 

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

4º Seminário de Ciência da Religião Aplicada (SEMCREA)



31/mar/2020 

O Seminário de Ciência da Religião Aplicada (SEMCREA) é um evento discente, anual e gratuito do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciência da Religião da PUC-SP, que ocorre no início do primeiro semestre de cada ano. O SEMCREA tem como objetivo semear contribuições e aplicações profissionais para além da Academia às pessoas formadas em ciência da religião.

Desde a primeira edição, os textos das apresentações que compõem o SEMCREA são de acesso livre e estão disponíveis para leitura no website do evento, em benefício de quem tiver interesse. Além disso, as apresentações são gravadas na íntegra pela TV PUC-SP e disponibilizadas gratuitamente na Internet.

As discussões do SEMCREA ocorrem mediante a apresentações de papers submetidos com antecedência, durante o período de chamadas abertas no website do evento. Os trabalhos devem responder a questão específica relacionada ao tema do evento. São priorizados textos produzidos por cientistas das religiões ou pesquisadores da ciência da religião em formação. Representantes de outras áreas são bem-vindos, desde que façam uma relação entre o conhecimento de sua área de origem com a ciência da religião.

Cada paper selecionado integra a uma mesa de discussões, cuja exposição oral não deve ultrapassar os 15 minutos. Após os trabalhos de uma mesa serem todos apresentados, ocorre uma interação com o público presente para comentários e opiniões sobre as propostas. Embora os proponentes devam se inscrever no website do evento com antecedência, o credenciamento para ouvintes é feito gratuitamente no dia e local do próprio SEMCREA.


Anais do 3º SEMCREA (2019):

Por: Fábio L. Stern
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Bolsista PNPD/Capes no PEPG em Ciência da Religião


quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Confúcio: plantando harmonia e virtude em meio à discórdia



Confúcio foi um pensador e filósofo chinês que viveu entre 551-479 a.C cujo nome é sinônimo da Filosofia Oriental (chinesa, coreana e japonesa). De origem modesta, Confúcio nasceu numa família humilde. Seu pai faleceu quando ele tinha apenas três anos. Assim, crescendo em relativa pobreza, teve uma série de empregos (pastor de rebanhos, escriba, guarda-livros), por isso, a humildade foi e continua sendo uma virtude central das culturas confucianas.  


Apesar da origem humilde, Confúcio alcançou uma posição de poder em sua vida adulta que o possibilitou a persuadir vários governantes que governar pela virtude era superior a governar pela coerção. Ele dedicou as últimas décadas da sua vida ao magistério, e, por isso, ele estabeleceu um enorme legado que viria a definir o caráter filosófico da cultura Oriental, de modo que, sua influência no Oriente chega a superar a influência de Aristóteles no Ocidente, pois, seu projeto tratava-se da compreensão das leis e sua aplicação na via cotidiana.

Na doutrina de Confúcio não há um Deus, uma unidade criadora e muito menos templos ou igrejas. Seu objetivo era a busca da harmonia da vida e do mundo. Ele falava de ‘meu Tao’ e aconselhava os seus discípulos a dedicarem inteiramente ao Tao, pois, segundo ele, se um homem escutasse o Tao de manhã e morresse à noite, ele não teria vivido em vão. O Tao é a harmonia predominante no universo, ou seja, o relacionamento equilibrado entre todas as coisas que deve servir de modelo para a sociedade.

Ele acreditava que a natureza e o universo estão sempre em harmonia, e que isso deve se aplicar também ao homem. Portanto, os homens devem viver em compreensão e harmonia. Para esse fim, o homem precisa de conhecimento e compreensão que podem ser obtidas pelo conhecimento da tradição, pois, para ele, o homem era naturalmente bom e que todo mal brota da falta de conhecimento. Por isso, a educação implica transmitir conhecimentos corretos.

Na sua formação foram importantes quatro obras acessíveis a ele na altura: O livro das mutações (aprendeu a seguir o caminho do ‘Tao’); O livro das odes (aprendeu a reverenciar o amor em suas manifestações poéticas e humanistas); O livro da história (aprendeu a venerar a ancestralidade); O livro da música (aprendeu a sintonizar com as vibrações que sustentam o universo). Mas, foi o ‘Tao’ conforme revelado à ele no livro das mutações, que permeou seu pensamento e deu forma ao seu sistema de ética e virtude.

Confúcio encorajava o comprometimento com a aprendizagem por toda a vida. Sua mensagem é que nascemos para aprender, em vez de permanecer em estado de ignorância. Mas, segundo ele, a busca do saber pelo saber, pode fechar a mente e não conseguir abrir o coração. Então, sabendo pouco ou muito, o mais importante é o que cada um faz com o que sabe na prática da virtude, pois, alguns praticam a virtude através do aprendizado, e outros, além.

Ele acreditava que a compreensão humana desenvolve-se através da interação entre teoria e prática, por isso, precisamos de teorias sólidas para formar nossas atividades práticas, para progredirmos como seres humanos. Por isso, a manutenção da ordem equilibrada depende da harmonia entre as teorias das circunstâncias mutáveis e da prática das virtudes imutáveis.



MARINOFF, Lou. O caminho do meio. Trad. de Paulo Andrade Lemos e Márcia Sobreiro. - São Paulo: Editora Record, 2008. 

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

BUDA: O CAMINHO DO MEIO



Siddhartha Gautama (566 a. C.- 486 a. C.), ou Buda “o desperto”, foi ele próprio um tipo de extremista em períodos diferentes de sua vida e descobriu que os extremos não nos ajudam a tornar-se despertos. Aos 40 anos, depois de anos de autoindulgência seguido por um árduo ascetismo religioso, ele tornou-se totalmente iluminado enquanto estava sentado em baixo de uma árvore bodhi.

Buda afirmou que os extremos não conduzem, em si a iluminação. Esses extremos são ilustrados na infelicidade que vemos no ocidente materialista e entre praticantes de religiões fanatizadas e o hedonismo americano que produz demais e consome demais. Cada um desses extremos acusa o outro de diabólico.

O Caminho do Meio de Buda nos ajuda a evitar esses extremos pela prática da moderação em nossas próprias vidas e da compaixão pelo sofrimento alheio. Ele nos ensina a não usar nossas diferenças como base de apegos negativos, como o ódio.

Qual é o Caminho do Meio de Buda? O caminho do meio é a reverência pela santidade da vida: a vida de cada um, a vida das outras pessoas, a vida da natureza e todas as inter-relações extensivas e intrincadas. Entretanto, para a consistência harmoniosa com os outros, precisamos “coexistir” harmoniosamente conosco.

Por isso, Buda pensa nas Quatro Nobres Verdades, que constituem na teoria e na prática de tal coexistência harmoniosa, pois, sua filosofia é racional, empírica, ou seja, científica. Então cada um pode testá-la.  

A Primeira Nobre Verdade é que a vida engendra o sofrimento, ou seja, todos sofrem: cristãos, muçulmanos, ateus, agnósticos, etc. o sofrimento é uma verdade inegável da existência humana...

A Segunda Nobre Verdade diz que o sofrimento tem suas causas, ou seja, todos os fenômenos estão sujeitos às leis de causa e efeito. Os ciclos de sofrimento humano, a luta, a dor, o desgosto, a lamentação, o desespero, o arrependimento, a doença e a morte – cada um tem sua causa...

A Terceira Nobre Verdade diz que a causa do sofrimento podem ser eliminadas, pois, o sofrimento humano desaparece quando suas causas são eliminadas, abrindo caminho para a harmonia, da tristeza para a felicidade, do desgosto para a alegria, da lamentação para a celebração, do desespero para a esperança, do arrependimento para a realização. Tudo é fugaz e temporário...   

A Quarta Nobre Verdade indica o caminho para libertar-se do sofrimento. Buda aponta um conjunto de práticas explícitas para a realização desta tarefa através do caminho óctuplo, pois, existem oito etapas de prática para a diminuição do sofrimento, ou seja: 
A compreensão correta (entender o sofrimento), o pensamento correto (ter boa vontade inofensiva), a palavras correta (entender o poder das palavras), a ação correta (fazer as coisas com moderação), o modo de vida correto (ganhar a vida de maneira prestativa), o esforço correto (encarar desafio de maneira construtiva), atenção correta (presença da mente, consciência das emoções) e a concentração correta (desenvolver poderes mentais da atenção, visualização, da compressão, da compaixão que levam a serenidade e tranquilidade).    
Isto é em parte, o que explica o fato de o Budismo ser mais do que uma religião, pois, qualquer outra religião depende do poder externo para a salvação  ou para a redenção. O Budismo não depende de poderes externos, pois, em vez disso, mobiliza recursos que estão dentro de cada um. O caminho do Meio mora dentro de cada um, e o Budismo desperta para ele.




Referência: 

MARINOFF, Lou. O caminho do meio. Tradução de Paulo Andrade Lemos e Márcia Sobreiro. – Rio de janeiro: Record, 2008, p. 97 a 104.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Afinal, quem era Jesus Cristo?


Quem era Jesus Cristo? Homem? Deus? Homem e Deus? E como relacionavam-se nele essas duas "naturezas", divina e humana? Onde termina uma e começa outra? 

Quando Jesus chora no Getsêmani (jardim das oliveiras) ou se desespera na cruz, é o homem ou Deus que agoniza? Como pode Deus agonizar? 

A opção final dos primeiros cristãos será pela natureza dupla e não misturada de Cristo, Deus e homem. Quando chora e agoniza na cruz, é o homem que fala. Quando ressuscita, é Deus quem vence a morte humana. Por outro lado, a dupla natureza de Cristo será importante para entendermos o peso da sua paixão: um Deus que sente dor por amor (ágape) à humanidade, esvaziando-se de seus "superpoderes" para sofrer a paixão em nome da pedagogia do amor, pedindo ao Pai (na condição de homem) que "perdoe porque eles não sabem o que fazem" e nos "redimindo" dos nossos pecados. A escolha pela dupla natureza não deve ser menosprezada porque ela carrega em si um sentido teológico essencial. 

Se Jesus fosse apenas um homem, mais um profeta de Israel ou um "mero" messias, como diziam os arianos, ele não teria poder para interromper sua paixão, e, portanto, seu amor pela humanidade poderia ser "diminuído", uma vez que fosse visto como fruto, em parte, de sua impossibilidade de mudar seu destino, isto é, de não sofrer a paixão injusta, uma espécie de sublimação melosa de seu fracasso. Jesus sofreria por não poder evitar sua própria agonia e, portanto, sua morte não poderia ser evitada, e seu amor seria então o amor de um justo, mas, fraco como todos nós. Seu amor não teria o impacto cosmológico-moral de alterar a economia do pecado. Há uma fina psicologia de Cristo em jogo aqui. 

Se por outro lado, ele fosse apenas espírito, sua paixão seria apenas uma farsa para emocionar o povo. Sua dor seria uma mentira. Sendo ele apenas um homem, seu amor seria "menor", sendo ele apenas um espírito divino, sem corpo, seu amor seria sem agonia verdadeira. Apenas a dupla natureza daria a Jesus sua grandeza teológica: um Deus que sofre livremente, por amor à humanidade. 

Todavia, a crítica histórica pontuará que a divinização de Jesus será feita à custa de um caráter popular original. Até na arte da época podem-se ver os sinais desse processo de divinização como roubo  do Cristo do povo e recriação da figura de Jesus na pele de um Deus que, na realidade, se faz parente do imperador bizantino: no teto da Basílica de Santa Sofia, em Istambul, hoje chamada de Aya Sofia pelos turcos, vemos o Deus Cristo "de mãos dadas" com o imperador, enquanto o povo fica de fora. 

Mais uma vez, política e teologia se confundem. Se é verdade que o Cristo pobre foi substituído com sua divinização, pelo Cristo da aristocracia bizantina, nem por isso, a teoria da dupla natureza de Cristo é menos importante para o drama que associa um Deus à paixão na cruz. Os desdobramentos contemporâneos dessa questão são muitos [...]. 


PONDÉ, Luíz Felipe. Para entender o cristianismo hoje. - São Paulo: Benvirá, 2011, p. 31, 32, 33.