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quinta-feira, 22 de novembro de 2018

FILOSOFIA DA RELIGIÃO


PAINE, Scott Randall. Filosofia da religião. In: Compêndio de Ciência da ReligiãoJoão Décio Passos, Frank Usarski (Org.). – São Paulo: Paulinas: Paulus, 2013. 



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Dados biográficos

Professor e pesquisador associado da Universidade de Brasília, com estudos na Universidade de Chicago (1970-71), possui graduação em Latim e Literatura Latina pela Universidade de Kansas (1974), Graduação em Filosofia e Teologia, Mestrado (1982) e doutorado (1988) em Filosofia pela Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino. Experiência nas áreas de Filosofia, Teologia e Ciências da Religião, com ênfase em Filosofia Medieval, Filosofia Oriental, Metafísica, Teologia e Filosofia Comparadas. Pesquisador visitante na Universidade Nacional de Cingapura em 2007 e no Centro para o Estudo das Religiões Mundiais da Universidade de Harvard em 2013.

INTRODUÇÃO

ü  A FILOSOFIA DA RELIGIÃO não surgiu do dia para a noite, foi um processo onde é possível identificar caminhos [paralelos – divergentes – convergentes].

ü  O objetivo desse artigo é examinar a relação histórica e problemática entre RELIGIÃO e FILOSOFIA que deram origem a FILOSOFIA DA RELIGIÃO:

1.    No PRIMEIRO momento - reflete sobre a complexa realidade conceitual de cada termo, mostrando a dificuldade na definição objetiva de cada um;
2.    No SEGUNDO momento - investe na procura dos antecedentes da filosofia da religião;
3.    No TERCEIRO momento - aborda a filosofia no mundo anglo-saxão; seguida da filosofia continental da religião;
4.    E, finalmente faz uma análise sobre a filosofia comparada da religião e a filosofia da religião no Brasil. 

Seu surgimento da remonta dois fatos históricos:
Estudo não confessional da religião a partir do século XVIII; em perspectiva histórica, linguística, antropológica, sociológica e psicológica;
Surgimento de novos estudos de religiões pouco conhecidas;

Na filosofia contemporânea ressurge o interesse reanimado:
 pela crença e fenomenologia da experiência e linguagem religiosas;
Pelo problema do mal e da liberdade humana;
Pelos argumentos sobre a existência de Deus ou não.

ORIENTAÇÕES CONCEITUAIS

Para o autor a Filosofia da Religião se estrutura em torno de quatro eixos:
Ø  Discussão da existência e natureza de Deus ou de algo transcendente;
Ø  A justificativa da crença, a experiência religiosa, a mística e os milagres;
Ø  O problema do mal e do livre arbítrio;
Ø  As estruturas religiosas, cognitivas, morais e rituais, ou o credo, o código e o culto.

ANTECEDENTES DA FILOSOFIA DA RELIGIÃO

Ao relacionarmos os conceitos de FILOSOFIA e RELIGIÃO, podemos elencar três tentativas, a saber:

1.    Filosofia é Religião (identidade), ou seja, uma aproximação semelhante a uma fusão;
         Pode ser identificada de duas formas:

ü  Em certas correntes do budismo, do neoplatonismo, no positivismo comteano e nas formas pragmáticas do marxismo;
ü  Correntes religiosas que reclamam somente à revelação ou a uma intuição mística, todos os direitos de conhecimento fidedigno acessível ao homem.

2.    Filosofia e Religião (paralelismo), saberes distintos e inconfundíveis, tanto no método quanto no conteúdo;

          Os dois conceitos afastam um do outro:
ü  Distinção e distância estabeleceram-se como caraterísticas dessa relação;
ü  Ambas costumam ser vistas como inconfundíveis tanto no método quanto no conteúdo.
2.    Filosofia na Religião (teologias e metafísicas religiosas), a cooperação entre ambas gerou grandes teologias.
ü  a cooperação entre ambas, no Ocidente gerou grandes teologias, (cristianismo, Judaísmo e Islã).


FILOSOFIA DA RELIGIÃO

No mundo moderno, a Filosofia começou a ter a Religião como objeto de reflexão e aponta três razões.
 
ü  Primeiro: no século XV – Cisma da cristandade entre Oriente e Ocidente; surgimento de denominações protestantes; a religião deixou de ser identificada com uma única igreja;
ü  Segundo: a chegada de novas fontes de informação sobre o oriente no século XVII através dos Jesuítas.
ü  Terceiro: surgimento das ciências modernas: ataques ao pensamento religioso/teológico levaram ao amadurecimento da reflexão sobre a origem desse fenômeno.

Nos séculos XVI e XVII, vários pensadores tentaram estudar a religião enquanto tal, com um olhar filosófico, mas com pouco impacto.

Exemplos:
ü  Jean Bodin (séc. XV);
ü  Pedro Abelardo, Raimundo Lulio (séc. XIII);
ü  Nicolau de Cusa (séc. XV).
ü  No século seguinte H. Cherbury, publicou suas Cinco noções comuns, que ofereceram outro caminho pela formulação de teses abstratas e universais.

Outras interpretações tentaram dar um valor aos pormenores da crença:
ü  Bernard Fontenelle (séc. XVIII) sugeriu que a religião como uma espécie de protociência [esforço racional], mas da parte de pessoas não instruídas pela ciência moderna;
ü  Giambattista Vico (séc. XVIII) valorizava o aspecto poético e imaginativo caraterístico das religiões como válida, mas, não valorizada de conhecimento...

Com David HUME e outros filósofos do séc. XVIII - questões sobre religião começaram a universalizar com um viés mais crítico.

      Para ele:
 ü  Os milagres não merecem crença da parte do homem;
ü  Os argumentos sobre a existência de Deus eram refutáveis;
ü  A origem da religião seria atribuível a projeções de agência humana em poderes da natureza ainda não conhecidos cientificamente.
  
ü  Um século depois [XIX], MARX afirmará que “a crítica da religião é a pré-condição de toda a crítica futura” [...]
ü  LEIBNIZ [vê a religião com bons olhos] – escreveu em 1710 um Discurso preliminar sobre a conformidade da fé com a razão;
ü  No final do século KANT daria um valor positivo à religião [o instinto moral humano pode explicar o surgimento das crenças, que serviriam como defensores da moral]:

Em KANT, a redução da religião à moral teve como meta transformar o ser humano e não apenas no agir.

HEGEL e COMTE integram a religião nos seus sistemas filosóficos:
ü  No primeiro caso, etapa necessária para o idealismo hegeliano, como estágio de emergência do Espírito Absoluto;
ü   No positivismo comteano, como etapa separada no progresso rumo a formulação do positivismo como a religião da humanidade. 
ü  SCHLEIERMACHER valoriza a religião positivamente, mas de maneira não teórica.

Obs: enquanto KANT pretendeu explicar a religião deixando os fatos religiosos concretos desprovidos de interesse, HEGEL, COMTE e SCHLEIERMACHER, valorizaram os fenômenos particulares, fazendo de um filosofar sobre a religião uma autentica Filosofia da Religião.

FEUERBACH, KIERKEGAARD, FREUD, MARX, ambos a sua maneira refletem sobre o “fenômeno”:

ü  FEUERBACH – vê no cristianismo, uma filosofia do homem, ou seja, algo integral à realidade humana que requer reflexão. 
ü  KIERKEGAARD - interpretará os paradoxos e aparentes contradições do Cristianismo como estratégias divinas para desarmar a ignorância humana.
ü  FREUD e MARX – vêm na religião não apenas só doença ou narcótico, mas algo rico e cheio de conteúdo intelectualmente estimulante, embora as interpretações sejam divergentes.

Fora do mundo acadêmico, os filósofos como GUÉNON COOMARASWAMY [perenalistas] avançam a Tese de uma FILOSOFIA PERENE, presente em todas as tradições religiosas, que incentivou obras relevantes para a FILOSOFIA DA RELIGIÃO.
  
ü  Em meados do século XX, identifica-se duas tendências que levaram o filósofo acadêmico a se ocupar da religião.
ü  Primeira: reanimação de algumas problemáticas epistemológicas e até metafísicas que a Filosofia acadêmica havia tentado aposentar, mas, sem êxito;
ü  Segunda: nova atenção proporcionada à riqueza e diversidade do fenômeno religioso, provindo das ciências sociais e da religião comparada.

A relevância desses estudos chegou à tona graças aos estudos sobre filosofia Oriental. A íntima relação entre Religião e Filosofia fez com que a FILOSOFIA DA RELIGIÃO recebesse bastante atenção.

  Além disso, ainda podemos citar:

ü  Interesse crescente na Filosofia mundial (Sabedoria indígena, por exemplo);
ü  Interesse na Fenomenologia da Religião através dos teólogos OTTO, VAN DER LEEUW, MAX SCHELER e ELIADE.
ü  MAS, o termo FILOSOFIA DA RELIGIAO fez sua estreia acadêmica com o filósofo platônico Ralph Dudworth (século XVII) ganhando nomenclatura na última década do século XVIII.
ü  Na segunda metade do século XX despertou mais interesse de pesquisa e publicação, pois, os filósofos começaram a abrigar-se nos departamentos de Filosofia.


FILOSOFIA DA RELIGIÃO NO MUNDO ANGLO-SAXÃO

A corrente de FILOSOFIA DA RELIGIÃO mais ativa no início do século XXI nasceu na linhagem de uma escola histórica anti-metafísica e antirreligiosa: O POSITIVISMO LÓGICO.

ü  Não que o conhecimento religioso metafísico fosse falso, mas carecia de sentido.

Como é que desse contexto pouco promissor surgiu a manifestação mais vigorosa de FILOSOFIA DA RELIGIÃO no mundo acadêmico?

ü  Foi graças a WITTGENSTEIN. Sua obra Tratactus logico-philosophicus (1921) é vista como uma declaração de independência do cientificismo para o CÍRCULO DE VIENA e do POSITIVISMO LÓGICO. 

ü  Ele declarou assuntos metafísicos e religiosos além do alcance da linguagem empiricamente verificável e de interesse zero para a filosofia, porém, anos depois, rejeitou a teoria da linguagem do seu Tratactus e abraçou a visão de “jogos de linguagem” como a maneira que vários sentidos fora da ciência podem construir sentidos religiosos. 

Outros estudiosos, a partir de 1950 abriram portas para a “linguagem ordinária” e começaram a estudar a linguagem religiosa, assuntos metafísicos, epistemológicos e moral ligados à religião.  

ü  A Filosofia da Religião tem se dedicado a assuntos relevantes a saber:
ü  A coerência da ideia de deus e provas para a sua existência;
ü  A epistemologia da fé e a experiência religiosa;
ü  O problema do mal.

Na discussão das demonstrações sobre a existência de Deus:

ü  SWINBURN sugere que apesar da insuficiência das provas ontológicas, cosmológicas, teológicas e morais, vistas em conjunto constituem um elemento de alta probabilidade; 

ü  Outra prova é aquela apresentada pelos seguidores da “epistemologia reformada” de CALVINO, que defenderam o caráter básico pré-argumentativo da crença em Deus, e, por isso, nem precisa de provas para justificar;  

ü  PLANTINGA completa sua defesa da racionalidade da crença em Deus atacando o naturalismo ontológico. Ele tira a possibilidade de confiar que o aparato cognitivo humano torna possível teorias verdadeiras e não meramente úteis para a sobrevivência.

Vários filósofos analíticos da religião tem desmentido acusações de uma irracionalidade, mostrando que quando uma crença não pode ser provada racionalmente, no entanto pode ser razoável aceita-la.
ü  Geralmente esses pensadores são tidos como CRIPTOAPOLGETAS do Cristianismo, por terem se juntado a pensadores religiosos dos séculos XVII e XVIII [...]

Outra FILOSOFIA DA RELIGIÃO vem de teólogos inspirados por WHITEHEAD que tentam eliminar o escândalo do MAL pela negação da onipotência divina e a insistência em um Deus imanente. 

ü  Novos modelos através da Biologia Evolucionista estão em discussão desde o inicio do século, mas é muito cedo para avaliar o papel que terão a longo prazo.


FILOSOFIA CONTINENTAL RELIGIÃO  
           
ü  Embora a fronteira entre a FILOSOFIA ANGLO-SAXÃO e a CONTINENTAL não esteja bem definida (séc XXI), ela é claramente não analítica, ou seja tem pouca afinidade  com as ciências naturais.
ü  Os filósofos encontram-se menos em departamentos de Filosofia, como no mundo anglo-saxão, e mais em departamentos de Teologia ou Ciência da Religião.

FILÓSOFOS COMO:

ü   SCHLEIERMACHER , KIERKEGAARD tentam resgatar a religião do campo cognitivo;
ü  TROELTSCH e BULTMAN usam a categoria de história [história da salvação] para forjar um pensamento coerente sobre a religião;
ü  Gabriel MARCEL e M. BUBER, através do existencialismo cristão revelam novos pontos de contato entre religião e filosofia;
ü  O TOMISMO em todas as escolas [neoescolástica, transcendental, fenomenológica e existencialista] continuam gerando aprofundamentos filosóficos através do legado de AQUINO, com Kant, Husserl Heidegger e Wittgenstein.


FILOSOFIA COMPARADA DA RELIGIÃO

ü  É uma área mais recente, mas que promete muito crescimento. Ela migrou para as Ciencias Sociais, as humanidades e a História chegando aos departamentos de Ciência da Religião. 

ü  Grande parte da terminologia religiosa carece de exegese filosófica só para que possam articular suas convicções e explicar suas práticas.

ü  A Filosofia na Religião afasta-se do contexto confessional e junta-se as outras filosofias que servem em outras tradições para comparar conceitos lógicos, cosmológicos, psicológicos, metafísicos, éticos e estéticos para construir uma FILOSOFIA COMPARADA DA RELIGIÃO.

FILOSOFIA DA RELIGIÃO NO BRASIL

ü  Encontra-se camuflada, entre Departamentos de Teologia, Ciência da Religião e Filosofia, sendo temido como uma forma criptoteologia.

ü  Tem despertado algum interesse por parte de missionários, de cientistas sociais, especialmente das religiões minoritárias que, juntamente com o Cristianismo criaram uma dinâmica que não pode deixar a religião fora da ementa dos filósofos.

ü  Assim, a influência do positivismo (séc. XIX - XX) e do marxismo na década de 1960, acabaram dando lugar a programas de FILOSOFIA DA RELGIÃO no final do século XX, em algumas pós-graduações do país, tendo sido criada a ABFR que até 2017 organizou sete congressos nacionais.


CONCLUSÃO

O perfil da FILOSOFIA DA RELIGIÃO pode ser esboçado através de dois tópicos:   

Os que dirigem sua reflexão ao objeto de crença e práxis religiosa:
Ø Esses abordam seu objeto apenas como aquilo que a razão humana pode determinar;
Ø Podem levar em consideração dimensões filosóficas das doutrinas além da razão que abrem horizonte não racionais

Ø  Outros debruçam sobre o sujeito da experiência religiosa: 
Ø  Estes podem estudar as condições de possibilidade cognitivas e psicológicas da experiência religiosa e até mística.

Negando à religião a possibilidade de uma reflexão filosófica abrangente é torná-la mais pobre, pois, nenhum outro assunto é capaz de revigorar nos filósofos a dedicação prestada por seus antepassados às GRANDES QUESTÕES. 


quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Coletivo Negrasô convida: III Semana Preta da PUC-SP


"Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista." - Angela Davis.

5 a 9 de novembro no Campus Monte Alegre da PUC-SP

5 de novembro às 19h: Religiosidade Negra
Convidados: Baba Rodney de Oxóssi, Carol Afeekana e Edson Santos
Mediação: Sabrina
Sala: P65 (prédio velho - 3 andar)

6 de novembro às 19h: Intelectualidade Negra
Convidados: Liliane Braga, Amailton Azevedo e Marcos
Mediação: Mayara
Sala: P65 (prédio velho - 3 andar)

7 de novembro às 19h: Abolicionismo Penal
Convidados: Dina Alves e Crick
Mediação: Marilia

Sala: P65 (prédio velho - 3 andar)

8 de novembro às 19h: Conjuntura política e organização para resistência
Convidados: Erica Malunguinho e Mariana Luz
Mediação: Juliana

9 de novembro às 19h: Encerramento artístico (Bosque ou Prainha)

Facebook: https://www.facebook.com/events/306061936650737/

Pró-Reitoria de Cultura e Relações Comunitárias


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

VI Simpósio Luso-Brasileiro de Filosofia da Religião e Ciência da Religião:

Experiências Religiosas e Mídias Sociais no Contexto da Sociedade da Pós-Verdade



Coordenação

Prof. Dr. José J. Queiroz

Ementa:
A temática Experiências Religiosas e Mídias Sociais no Contexto da Sociedade da presumida Pós-Verdade assume como perspectiva basilar investigar as múltiplas possibilidades de experiências religiosas mediadas pelas mídias sociais, em um contexto marcado pela pós-verdade. As mídias sociais configuram-se, no contemporâneo, como locus privilegiado de comunicação e difusão de ideias e valores. Têm sido assumidas como campo fértil para a propagação de mensagens religiosas. No ambiente virtual viceja a interpretação solta, subjetiva, descompromissada com a noção de uma verdade objetiva. É importante analisar quais os impactos para a experiência religiosa de interpretações que abrem mão de uma concepção objetiva de verdade, amplamente replicadas via mídias sociais.

Mesa de Abertura
Prof. Dr. Frank Usarski / Prof. Dr. José J. Queiroz / Prof. Dr. João Duque
Definicio Terminorio.

Mesa Temática 1
Mediador Prof. Dr. Adelino Francisco de Oliveira
A Verdade da Experiência Religiosa na Internet e nas Mídias Sociais.
Partindo da analise do conceito de experiência religiosa, debater como tal experiência se faz presente no universo da Internet e das mídias sociais.

Mesa Temática 2
Mediadora Prof.ª Dra. Maria Luiza Guedes
A Mensagem Religiosa diante da Cultura da Pós-Verdade.
Analisar como a experiência religiosa que se articula a verdade dialoga com a cultura da pós-verdade.

Mesa Temática 3
Mediador Mestrando Victor Aversa
Experiência Religiosa e Transformação Social entre o Senso Comum e a Pós-Verdade.
Avaliar e perspectivar possibilidades de transformação social a partir das experiências religiosas que demarcam o contemporâneo.

Conferência de Encerramento
Autoridades e lideranças religiosas no tempo das mídias digitais.

Para mais informações, clique em: 


quarta-feira, 22 de agosto de 2018

EM BUSCA DE SENTIDO - LEANDRO KARNAL (1)



No primeiro vídeo da série, Leandro Karnal apresenta a visão de um historiador sobre as religiões. E propõe reflexões: 

a) Como se define religião? 
b) Qual a diferença entre religião e fé?  
c) Dá para comparar uma religião com outra? 
d) Todas as religiões levam ao bem? Como as religiões explicam a origem do mundo e da humanidade?

Conceitos-chave
Religião; ateu; agnóstico; Religar (religare); costomização das religiões; oraçao, prece, ritual, sacrifício; fenomenologia;
religiões monoteístas; dualistas; animistas; ecumenismo; totemismo; pensamento mágico e racional; liturgia; culto; teologia; metafísica; símbolos; gênesis; onipotente [...].

Fonte: Religião # 1 em busca de sentido. Publicado em 18/08/2018. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=CztqsoWZOQU>. Acesso em 22/08/2018

quarta-feira, 11 de julho de 2018

REFLEXÕES SOBRE O 'SAGRADO'.


Arlindo Nascimento Rocha
"Grandes Temas de Ciência da Religião"
arlindonascimentorocha@gmail.com

Reflexões sobre o sagrado:dos primórdios à atualidade

Acredita-se que, desde os primórdios da humanidade os homens sempre tiveram uma concepção integrada do real, pois, nesse primeiro momento da evolução não havia ainda a noção fragmentada da realidade, caraterística vista atualmente como necessária e inevitável. Essa noção fragmentada da realidade tornou-se um imperativo através da qual passou-se a reconhecer a existência de realidades paralelas, irredutíveis e incomensuráveis entre si. 

Entretanto, ao recuarmos no tempo, é possível imaginar que, nessa altura a concepção que norteava as escolhas e a vida do homem, era uma concepção integrada do universo como um todo organizado em que tudo girava em torno do sagrado, pois, vários estudos apontam que o estado normal era o religioso (sagrado), ainda que em sua fase primitiva, enquanto que no lado oposto, ou seja, o anormal seria o profano. Assim, o profano passou a existir em função da não aceitação do sagrado, 'fenômeno' que atualmente é conhecido como dessacralização que, Guimarães narra em sua obra O sagrado e a história, segundo a qual Eliade considera que, o conceito de dessacralização atingiu a interioridade da própria consciência, de sorte que, a seu nível, o sagrado foi abolido, ou seja, esquecido (GUIMARÃES, 2000). 

Porém, atualmente alguns estudiosos defendam que, paralelamente ao recuo das religiões oficiais, surge o retorno do sagrado. A título de exemplo, podemos considerar o artigo citado por Danièle Hervieu-Léger, O retorno do sagrado, de Daniel Bell, que concluiu que, a probabilidade de um retorno da religião é identificada como um suposto retorno do sagrado (BELL, 1977). Entretanto, Bell foi imediatamente contrariado por Brian Wilson, enfatizando as fraquezas dos argumentos por ele apresentado. Assim, a tensão entre o sagrado e o profano sempre estiveram na ordem do dia, pois, ao contrário do que pensam muitos intelectuais, ela é mais antiga do que se pensa. 

Apesar dos limites bem estabelecidos na Idade Média, atualmente não é possível identificar esses mesmos limites no que tange ao alcance epistemológico de cada um, pois, na obra do sociólogo francês, Émile Durkheim, As formas elementares da vida religiosa, cujo esforço foi o de apoiar empiricamente a tese sobre a origem social da religião, afirma que não existe nada que seja essencialmente sagrado ou profano, uma vez que a diferença entre um e outro está relacionado com a finalidade social (DURKHEIM, 1989).  

Assim, respaldado pelo intenso debate e pela tensão contemporânea em torno da problemática sobre a continuidade ou não entre o ‘mundo sacralizado e as religiões oficiais’, versus o ‘mundo dessacralizado e a proliferação de novas religiões’, e consequentemente de novas formas de entender e interpretar o sagrado, foi trabalhado na disciplina: Grandes temas de ciência da Religião, um leque variado te autores e textos que nos permitiu um voo ainda que panorâmico, sobre diversas concepções do sagrado ao longo da história. O objetivo inicial era o de apresentar a trajetória do conceito enfatizando a etimologia e a história etimológica do mesmo, o que necessariamente conduziu ao estudo das posições consideradas clássicas, nomeadamente a do sociólogo Émile Durkheim (1858-1917), do cientista da religião Mircea Eliade (1907-19860), e do teólogo protestante Rudolf Otto (1869-1937). 

Resumidamente constatou-se algumas categorias paradoxais como: sagrado-profano; puro-impuro; interdito-permitido; caos-ordem; bom-nefasto [...] Para o primeiro, nas sociedades primitivas a realidade estava imersa no sagrado não havendo espaço para o profano, fato que o levou a desenvolver em sua obra As formas elementares da vida religiosa a oposição entre o sagrado e o profano; o segundo, identificou o sagrado como hierofania, ou seja, algo sagrado que se manifesta ao homem tornando-o consciente do sagrado uma vez que, é uma experiência que opõe ao profano; enquanto que, o terceiro aborda o conceito de sagrado como a manifestação do numen,  ou seja, poder divino, distinto de qualquer tipo de experiência.

Seguidamente, foi abordado as críticas mais recentes, relativamente a abordagem fenomenológica, pois, em nosso entender, tanto Otto, assim como Eliade estavam imersos na teia fenomenológica da religião; o primeiro procurando a compreensão do sagrado através da sua manifestação na consciência humana e o segundo buscando a manifestação do mesmo na dimensão ontológica e social, fato corroborado por, Lima (2016) ao considerar que Otto, em sua obra O sagrado, assume tais pressupostos e Eliade em, O sagrado e o profano, estabelece uma relação binária entre sagrado e profano. Entretanto, entre eles, o holandês Gerard van der Leeuw, foi o primeiro que se destacou por sua abordagem fenomenológica, tendo escrito em 1933 a obra intitulada A fenomenologia da religião. 

Esses três protagonistas, segundo Botelho (2010, p. 35) utilizavam o método descritivo visando identificar as semelhanças e diferenças nas religiões, percebendo no sagrado um componente essencial da religião. Porém, segundo Hock (2010, p. 14), “no século XX, a Fenomenologia da Religião em sua forma tradicional se tornou alvo de fortes críticas”, sendo a mais evidente delas segundo Usarski (2004), a piada da doença da numinose, uma crítica dirigida aos expoentes da fenomenologia clássica, ou seja, Söderblom, Wach, Mensching, mas, especialmente a Otto, criador do neologismo numinoso.

Dando continuidade foi abordada em linhas gerais a grande dificuldade de conceituação do sagrado, pois, sua polissemia, por vezes dificulta seu uso correto. Essa polissemia foi apresentada através da relação entre o sagrado como 'adjetivo' usado por alguns autores e o sagrado usado com 'substantivo' por outros. Em seguida e, talvez uma das críticas mais importantes diz respeito a tentativa de impor ou generalizar o sagrado como conceito universal, válido em todas as épocas, culturas e religiões. Essa possibilidade presente especificamente na cultura ocidental possui uma forte componente etnocêntrica, pois, a tendência geral é considerar o cristianismo como modelo e ápice das religiões monoteístas e consequentemente, os elementos do ‘sagrado cristão’ estariam na base da concepção do ‘sagrado universal’. 

Mas, depreende-se dessa tentativa um empreendimento fracassado, pois, a esse modelo etnocêntrico do método teológico europeu cristão foi e é alvo de fortes críticas, pois, o sagrado não se deixa apreender pelo conceito. Mesmo que consideremos que, a semelhança da religião, o sagrado está presente em todas as épocas, culturas e sociedades, isso, não justifica que, em todas haja a mesma interpretação, os mesmos métodos e meios de sacralização/dessacralização, as mesmas formas de reverência/repulsa. 

Então, observando que, nem todas as épocas históricas, sociedades e religiões o sagrado é visto sob o mesmo olhar, analisou-se também textos importantes de autores que analisam, sobretudo, a relação/tensão entre o 'sagrado religioso' pertencente às religiões ditas tradicionais e o 'sagrado secular', resultado das transformações religiosas e sociais, que conduziram necessariamente a emergência de novas religiões, novos cultos e consequentemente, novas visões sobre o sagrado. Para finalizar, analisou-se o conceito sob a perspectiva das diversas subdisciplinas da Ciência da Religião com o enfoque final para a sua recepção no Brasil, onde o reflexo das teorias fenomenológicas clássicas ainda está muito enraizado nas universidades.

Em jeito de conclusão, corroboramos a tese de Léger que afirma que a proliferação de estudos sobre o sagrado na atualidade só contribuiu para complicar ainda mais um assunto bastante controverso. Entretanto, a reflexão em torno das tensões sobre a universalidade/particularidade, objetividade/subjetividade, manutenção/transformação, monopólio/perda de monopólio, veneração/repúdio, criação/destruição, em torno de sagrado, considera-se que, a trajetória apresentada e discutida em aulas expositivas e seminários foi muito enriquecedora, pois, acredita-se que, todos saíram com novos elementos que darão efetivamente novos suportes epistemológicos em discussões futuras sobre o tema.  

Referências bibliográficas

BELL, Daniel. O retorno do Sagrado? O argumento do futuro da religião. In. HERVIEU-LÉGER, Danièle. Idas y vindas de lo sagrado. Capítulo III da obra La Religion por mémoir. Editora Cerf, 1993.
BOTELHO, Octavio Da Cunha. Afinal, o que é religião?  - São Paulo: Editora Clube de Autores, 2010.
DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. – São Paulo: Paulinas, 1989.
GUIMARÃES. André Eduardo. O sagrado e a históriafenômeno religioso e valorização da história à luz do anti-historicismo de Mircea Eliade. - Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000. (Coleção: Teologia 21).
HOCK, Klaus. Introdução à Ciência da Religião. Trad. Monika Ottermann. - São Paulo: Edições Loyola, 2010.
LIMA, Ronald. Fenomenologia da religião. – São Paulo: Clube de Autores, 2016.
USARSKI, Frank. Os enganos sobre o sagrado – uma síntese da crítica ao ramo "clássico" da fenomenologia da religião e seus conceitos-chave. Revista de Estudos da Religião Nº 4 / 2004 / pp. 73-95.